António Bica

As Mil e Uma noites (conto 7) - História do rei Junão e do médico Ruianes

Noite alta, sentindo o rei Xariar acordado, Xerazade começou:

Disse o pescador para o génio aprisionado no vaso:

Há muito, muito tempo, numa cidade distante, havia um rei de nome Junão. Era rico e poderoso. Numerosos e aguerridos eram os seus soldados. Outros reis, porque o temiam, eram seus aliados. Mas a lepra entrara a roer-lhe as mãos. Nenhum médico o curava nem dava alívio. Um dia chegou um conhecedor dos livros gregos, romanos, persas, árabes e sírios sobre a arte da medicina. Estudara também astronomia e as influências dos astros e era versado em filosofia. O nome era Ruianes.

Soube, pela tagarelice da hospedaria, da doença do rei e decidiu oferecer os serviços. Mal despontara o sol a atirar longe as sombras das altas torres, Ruianes vestiu a melhor roupa, montou o cavalo alazão, apresentou-se no palácio e disse ao rei: «Senhor, soube do mal que te aflige e que ninguém pôde curar. Embora muito tenha estudado, grande continua a ser a minha ignorância, que só Deus é sábio. Mas atrever-me-ei a tentar curar-te, se o consentires.» O rei respondeu: «Como me curarás, se tantos outros em vão o tentaram? Mas não te despedirei sem que o tentes, que é de bom aviso que na construção se não despreze nenhuma pedra, por insignificante que pareça, nem o juízo de nenhum homem de boa fé, que da pequena semente sai a grande árvore. Se me curares saberei recompensar-te.» Ruianes despediu-se do rei e alugou na cidade casa para nela pôr os livros e os estudar com cuidado. Depois de aturado estudo fez um taco de boa madeira a que ligou solidamente um cabo de madeira medicinal da Índia e untou-o com pós de variadas plantas. Fez também uma bola de madeira dura. Foi ao palácio e recomendou ao rei que, a cavalo, jogasse à pela com o taco e a bola. O rei cumpriu o prescrito e com tal entusiasmo o fez que o suor lhe correu abundantemente pelas mãos e todo o corpo e manchou as vestes. Assim entraram nas mãos os pós impregnados no taco e as virtudes da sua madeira. Regressou, depois de jogar, ao palácio. Banhou-se em água fria, depois em água quente e foi repousar. Quando acordou olhou para as mãos e viu que a lepra desaparecera. Mandou chamar o médico que acudiu e o saudou com as palavras do poeta:

«Vejo que Deus te favoreceu/ e afastou o mal terrível./ Que se conserve a tua face,/ a soberba não tenha em ti morada/ e o destino em tudo te sorria »

O rei, cheio de contentamento pela cura, ofereceu ao médico esplêndido jantar com a presença dos mais poderosos e ilustres da cidade, elogiou perante todos a sua sabedoria e pagou generosamente os serviços.

Ao lado do médico Ruianes sentava-se o velho vizir avarento e invejoso. Pareceu-lhe mal que o rei tivesse pago tão generosamente ao médico. Carregou-se de ciume e pensou em malquistá-lo com o rei, pois, como diz o poeta:

«O pensamento mau mora no invejoso,/ a sua mão é traiçoeira,/ esconde-se cobardemente/ e do escuro lança o golpe.»

Aproximou-se do rei e disse: «Ó rei poderoso, ouve o meu conselho, se te dignares escutar-me.» Junão ordenou-lhe que falasse. Começou: «Acabas de conceder benefícios ao inimigo; ao que, vindo de longe, quere perder o teu reino. Temo por ti e pela cidade. Não por mim, que breves serão os meus dias.» Perguntou o rei: «E quem é esse inimigo?» O vizir deu a estocada: «Ó rei, porventura não vês que me refiro a esse médico Ruianes? a esse que é seguramente espião ao serviço dos que cobiçam o teu reino? Esses rumores correm pela cidade. Melhor é que o mates antes que ele cause o teu mal.» Assim falou o vizir na esperança de que o rei seguisse o conselho e, em recompensa, lhe entregasse as riquezas que acabara de dar ao médico. O rei contrapôs: «É um bom servidor a quem devo a cura. Como ousas assim falar dele? Creio que, pela tua avareza, a inveja se emboscou no teu coração. Se te desse ouvidos, arrepender-me-ia seguramente, como se arrependeu o rei Sindebade depois de matar o falcão.» O médico Ruianes, que só ouviu estas últimas palavras e era grande apreciador de histórias, pediu ao rei Junão:

«Senhor, se não for impertinente, concede-nos a graça de ouvir essa história que é certamente admirável.»

O aproximar do sol nos últimos passos da noite enrubesceu a aurora. A ténue luz avermelhava o oriente. Xerazade calou-se e Xariar comentou: «Prodigiosa é a tua sabedoria. Cada noite és uma revelação.» E levantou-se para a audiência da manhã.

 

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