Crónica do Olheirão por Mário Pereira
Os políticos puros e os impuros
Hoje em dia é muito popular a ideia de que os problemas da governação se devem aos políticos profissionais e um político que não tenha uma atividade profissional ou rendimentos que lhe permitam não depender da política tem a sua credibilidade diminuída.
Essa ideia tem justificado, desde há longos anos, uma campanha contra os políticos profissionais, que se traduziu, nomeadamente, na limitação dos mandatos dos presidentes das câmaras e continua a alimentar a discussão em torno da limitação dos mandatos dos deputados.
A bondade desta ideia parece consensual, mas pode dar-se o caso de ela assentar apenas em crenças. Aliás, nunca vi um estudo que comprove que os políticos não profissionais são melhores do que os outros.
Parece que toda a gente concorda com a ideia de que os políticos amadores são melhores do que os profissionais, mas importa parar e pensar um pouco na questão, pois o facto da maioria das pessoas acreditar numa ideia, não garante que ela seja verdadeira.
Pude ler, recentemente, o livro “Culture of War?” do politólogo norte americano Morris P. Fiorina em que ele analisa diversos problemas da política americana, que a outra escala, são os mesmos que os nossos.
Um dos problemas, e que justifica o título, é perceção de que existe uma grande conflitualidade na política e na em geral sociedade. Com recurso a muitos dados ele demonstra que isso não é verdade quando se analisam questões fora das discussões políticas do momento.
Acontece que quem fala mais alto e quem tem mais espaço nas redes sociais, nos jornais e televisões são as pessoas que militam nos extremos, pelo que parece haver uma grande conflitualidade. Embora continuem a ser a maioria, os moderados tendem a falar menos e mais baixo pelo que têm grande dificuldade em se fazerem ouvir parecendo que não têm opiniões.
Naquele livro, Morris Fiorina reflete também sobre a evolução dos políticos, referindo a perceção muito generalizada de que há uma degradação da qualidade dos políticos acompanhada da tendência para promover a cargos de responsabilidade governativa pessoas sem experiência política, porque, estando menos envolvidos, serão mais puros do que os políticos profissionais.
Ele chama a nossa atenção para algumas características dos políticos amadores ou puristas e dos profissionais da política, que importa considerar.
Nomeadamente, que os políticos profissionais tendem a ser mais racionais e ponderados, o que os torna mais propensos à negociação e à busca dos consensos.
Por sua vez , os políticos amadores, a que o autor também chama de puristas, tendem a tomar as decisões em função das suas crenças e valores pessoais, o que os torna menos ponderados e racionais e faz com que lhes seja difícil negociar consensos e acordos, porque qualquer cedência é vista como uma quebra dos seus princípios.
Os puristas tendem a governar segundo as crenças pessoais mesmo quando os factos não de conformam com elas. Recentemente, o Presidente dos Estados Unidos chegou a afirmar que os serviços secretos estavam feitos com a oposição, porque as informações que lhe davam não concordavam com as suas opiniões.
Os puristas têm um problema acrescido, pois tendem a querer impor as suas convicções aos outros. Talvez por isso, podem degenerar em figuras autoritárias e populistas, conduzindo ao que hoje se chama democracia iliberal em que se mantêm os formalismos, mas se for necessário se fazem leis à medida das crenças do líder, se viola o princípio da separação de poderes e as liberdades individuais.
Segundo estes critérios Salazar, quando começou a sua carreira, poderia ser considerado um purista e depois deu no que deu. Cavaco Silva também pretendeu passar por purista, sem interesses na política, mas se o deixássemos ainda agora lá estava.
Como em todas as coisas, o equilíbrio é uma questão central, por isso um pouco de políticos experientes, capazes de cozinhar acordos e de negociar as decisões, acompanhado por uma dose adequada de políticos amadores descomprometidos com o sistema é capaz de ser a melhor receita.
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