Aurora Simões de Matos
NO PORTUGAL PROFUNDO - ESPAÇOS QUE JÁ NÃO SABEM SORRIR
(Excerto do livro ” A Escola do Montemuro e beira-Paiva – desafios, conquistas e perdas” – Dezembro de 2017)
(…)
O Montemuro, cada vez mais desertificado, vive agora o drama da falta de crianças, que se estende a outras regiões do Portugal Profundo. A juntar-se às demais crises, instala-se a grave crise demográfica. Não nascem meninos, os jovens e os adultos mais capazes partem, os idosos passam a ser a força sem força das nossas aldeias praticamente abandonadas.
A partir de finais do século XX, inúmeras escolas começam a fechar portas. Mas a grande sangria teria lugar em 2006.
Em setembro desse ano, as crianças de várias aldeias serranas e ribeirinhas são exemplos de meninos que perderam o direito a poderem crescer junto dos seus.
Edifícios onde, até há pouco mais de duas décadas, se ouvia o alegre bulício da criançada em busca do saber, são agora lugares fantasma, no silêncio de espaços que já não sabem sorrir.
E isto por toda a serra, por todo o vale, por todo o lado.
Os últimos governos tomam medidas. Há quem entenda serem as possíveis. Medidas economicistas, que não têm em conta uma pedagogia de proximidade para as poucas crianças que restaram, suas famílias e a classe dos professores que, apanhados de surpresa, reagem, sem sucesso, ao que consideram um dos grandes desastres do sistema educativo português.
Ao virar do novo milénio, cria-se um novíssimo modelo de gestão escolar. Surge a filosofia dos Agrupamentos Escolares, que junta alunos de diferentes ciclos, das diversas escolas com menos frequência. Contra a vontade das famílias, muitas vezes contra a opinião das autarquias. Tendo apenas em conta a poupança que nos é imposta de fora para dentro. Numa verdadeira massificação do ensino, impessoalizando as linhas de conduta desde sempre unificadoras da relação aluno-professor-família. Sofrem na pele, mais agudamente, as crianças com menos recursos económicos. Como sempre.
Os últimos ministros, de diferentes partidos, defendem o sistema. Não só com a tese da socialização mais equilibrada entre estatutos socioeconómicos diferentes, mas também como a única possibilidade de acesso e partilha de instalações bem equipadas. O reforço de unidades orgânicas pertencentes a um novo projeto educativo, através da articulação dos vários níveis de ensino.
No entanto, essa centralização dos serviços, que tentou mesmo dar lugar à municipalização do ensino, com o esquema de um Mega-Agrupamento por concelho, está longe de ser consensual.
O que foi criado, na base da democracia que deve levantar-se e consolidar-se na escola, acabaria por retirar-lhe competências. Cada vez é maior o abandono escolar. Cada vez mais difícil o apoio aos alunos com maiores dificuldades. Cada vez mais complicada a gestão de recursos. Cada vez mais sentida a preocupação dos professores, quebrada que foi a confiança com o Ministério. Sendo que este é apenas um dos pontos do desconforto.
As atividades de uma gestão pedagógica de proximidade, que foi afinal, até então, uma das maiores responsabilidades das escolas, passaram a ser preteridas, em favor de uma enorme concentração da burocracia.
Todos estes problemas, a juntar ao risco de mais que possíveis ambientes desfavoráveis entre os docentes. Da quebra do contacto com as famílias, a quem muitas vezes é mais fácil chegar à escola através da internet. De novos e dúbios modelos de avaliação… etc.
Pobres crianças!
Perante este estado de coisas, o Portugal Profundo, como sempre, obedece. Mas sofre. Pequenitos que, de diversos pontos da encosta e do vale, chegam bem cedo, como grande parte deles neste país interior, em transporte escolar coletivo, na busca do saber. A partir da tenríssima idade dos três anos. Por caminhos muitas vezes difíceis, com saúde muitas vezes debilitada. Com sentimentos de perda muitas vezes causadores de distúrbios emocionais irreversíveis.
As nossas crianças estão a ser, neste século XXI que se estimava de maiores facilidades na vida dos portugueses, sacrificadas à situação daquilo a que alguns chamam de “lógica da prática possível”. Ou será que o estão à incoerência e à insensibilidade de políticos que não têm minimamente em conta a psicologia infantil, nem as necessidades básicas da infância? E aqui refiro-me ao Ministério, às Câmaras Municipais e às Juntas de Freguesia. Se não, como se explica que haja escolas a funcionar com 10 ou menos alunos, quando outras fecharam com 19 e algumas com mais? Onde está a justificação desta injustiça tremenda? Apenas e só no poder político. Nas raivinhas locais e na inconsistência moral de certos agentes decisórios.
O certo é que estamos a criar novas gerações de crianças que o não são, porque lhes roubaram o tempo, o espaço e o direito de o serem, em plenitude. Algumas vezes, infeliz e inadvertidamente, pelo bairrismo doentio das famílias. Que preferem colocar os seus filhos a grandes distâncias, porque a aldeia vizinha sempre foi rival da sua. Muitas outras vezes, pior ainda, porque as escolas, por via de todo este contexto facilitador, se transformaram em depósitos de crianças. Famílias distraídas que, mesmo em lugares com escola à porta de casa, sabendo os seus filhos seguros, sistematicamente protelam, até ao último minuto, a hora de se entregarem deles. Um dos lados mais negativos da atual escola portuguesa. Lacunas dramáticas que um dia, inevitavelmente, hão de refletir-se numa sociedade adulta em convulsão.
A antiga trilogia “Deus, Pátria, Família”, que regeu as práticas pedagógicas do Estado Novo de Salazar, deu lugar à moderna trilogia “Austeridade, Poupança, Conformismo”, do Estado Democrático do Possível. Ainda e sempre, tudo continuando a depender do poder político.
Certamente que ninguém duvidará de que, sendo ambas elas redutoras, a última, contra todas as expectativas, esperanças e pudores, não será, todavia, menos nefasta para as crianças, primeiro e último sentido do conceito que conhecemos para a palavra ESCOLA.
Se é bem verdade que a EDUCAÇÃO sempre determinará o futuro de qualquer Povo, a razão e a prudência impõem que nela nos empenhemos por inteiro e lhe demos a mais urgente, correta, primordial e assumida prioridade.
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