João Fraga de Oliveira
Venezuela: o filtro
Há algum tempo que, sentindo-nos no meio de tanta mentira organizada, tanta manipulação e tanta intoxicação (des)informativa relativamente a questões geopolítico-económico- militares internacionais, tornámos mais ou menos automático o comportamento de nos afastarmos para reflectir e projectar no futuro a situação em causa através de um filtro reflexivo e prospectivo que fomos, quase inconscientemente, interiorizando.
Esse filtro de reflexão não fizemos grande coisa para o criar.
Foi-se-nos criando durante, digamos, os últimos 60 anos, aqueles em que alguma progressiva maturidade e consciência nos permitiram processar reflexivamente o que, de fora, a História, o que dela fomos “vendo, ouvindo e lendo sem podermos ignorar”, nos foi construindo e enraizando tal filtro na mente.
O filtro é fácil de enunciar: quase todas as situações político-sociais de outros países em que a administração norte-americana intervenha ou se imiscua (de forma directa e abrupta – maxime militar – ou indirecta e secreta ou indirecta, por exemplo via CIA), para a generalidade das pessoas desses países, objectivamente, degeneram em agravada inquinação económica, social, humana, política e, muitas vezes, da paz.
Vietname, Cuba, Chile, Argentina, Brasil, Haiti, Iraque, Líbia, Síria, Venezuela (também, antes de agora, com o bloqueio económico) …, são, entre outros, disso exemplos cujos tempos vivemos e que agora nos ocorrem.
O que restou, daí? A indução da criação deste filtro de análise e de projecção, um “abcesso” de desconfiança e de inquietude que, todavia, a administração norte-americana (e não só esta de Trump, muito embora com ele ficasse mais sensível) tem feito com que não se possa deixar de reconhecer que, doentio ou não, nos tem conferido mais lucidez.
Lucidez, na medida em que, por um exemplo aí na ordem do dia, nos faz antever que, humana, social e politicamente, o que mais possível se torna é que nada de bom aí venha (também) para a Venezuela. Ou, dito de forma menos abstracta, para os venezuelanos (e, por eles, não só).
Tanto mais que o filtro se tornou mais fino (logo, ainda que perversamente, mais fiável) com a “liderança” do processo por alguém que, objectivamente, é um descarado mandatário da actual administração norte-americana, ainda por cima com o acréscimo de potencial inquinação social e política (se não militar, esperemos que não) decorrente do envolvimento de Bolsonaro e Erdogan, para já não falar de outros indutores de filtros de desconfiança mais locais ou, no caso, até, pelo menos por omissão (ou submissão…), de governos da União Europeia.
Mas nada de extraordinário há nisto. Muita gente haverá por aí que já desenvolveu ou está a desenvolver (e, afinal de contas, ainda bem, …) os mesmos filtros de desconfiança relativamente a intervenções imperialistas, quaisquer que elas sejam.
É que, afinal, este imperialismo também adopta um filtro (digamos que, neste sentido, o nosso é um “contra-filtro”) nessas intervenções, o qual, como se percebe notoriamente ser aqui o da actual administração norte-americana, o filtro da supremacia do poder. Do poder (geo)mercantil, (geo)militar e (geo)político. Por exemplo, para não ir mais para trás na História, o filtro do poder da “America first”, de Trump, ou do poder da “nação mais rica, mais poderosa e mais respeitada do mundo”, de Obama .
E não, por mais que lhe chamem “humanitário”, o genuíno e desinteressado filtro do serviço. Do serviço de apoio internacionalista ao desenvolvimento económico, social e humano. E, daí, necessariamente, de desenvolvimento político, no sentido da (real) democracia, no contexto e suporte da autossuficiência económica e social e soberania política dos países em causa.
Aliás, já demasiado grossas e ramificadas, as raízes imperialistas da indução e disseminação destes filtros (ou “contra-filtros”, no outro sentido referido) já vêm de longe, de muito longe.
Até nós, (geo)pequenitates agora, também já contribuímos em tempos alguma coisa para isso. Com o que de pouco “humanitário” decorreu de muito de perverso imperialismo que, pelo menos à luz actual, também tiveram … as “Descobertas”.
Aliás, ainda agora, também nós, pelo menos por omissão, consentimento ou colaboração, continuaremos a contribuir para isso se não reflectirmos (e, tanto quanto possível, agirmos) ponderando “filtros” eminentemente humanos, sociais e políticos. E não, fundamentalmente, de poder económico, militar ou de condicionamento da soberania política.
Filtros que, afinal, nada mais são do que ver (mais do que isso, reparar, tanto quanto possível, “salvar”) as “circunstâncias”, que também somos, à luz da História.
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