Nazaré Oliveira – Coisas e Gente da minha terra
AS LADAINHAS

As LADAINHAS eram manifestações religiosas que remontavam à Idade Média. Realizavam-se em várias localidades da Região de Lafões.
Frei Agostinho de Santa Maria, no Santuário Mariano (1716), fala-nos, com grande soma de pormenores, das Ladainhas que todos os anos se faziam à Capela de Nossa Senhora das Colmeias, em Vila Maior “em acção de graças dos antigos favores que da sua piedade receberão como he a procissão de Moledo (…) em que vay o Parocho com todos os seus Freguezes em dia da Ascenção”. Outra era “a procissão do Lugar de Pinho (…) em reconhecimento de livrar a Senhora aquella Freguesia de huma praga de lagarta, que lhe destruhia as suas sementeyras de milho. Esta procissão se faz em dia de São Barnabé”.
Destas ladainhas não posso lembrar-me eu que, embora velho, não sou nenhum Matusalém. Mas lembro-me de outras que ainda se faziam na minha juventude. Recordo as que se faziam à Capela de S. Domingos, na borda do caminho que ladeava a Quinta da Caldeiroa. Ali vinham várias freguesias do Concelho, incluindo Vila Maior. Estas ladainhas nunca eu vi, porque não morava para aqueles lados.
Lembro-me muito bem de outras: as que se realizavam todos anos às Termas, à velha Capela de Nossa Senhora da Saúde, em Maio, por alturas da festa da Ascensão. Estas ladainhas passavam à minha porta, rentes à janela do meu quarto e sempre me acordavam. Ainda o sol vinha em casa de Judas, já eu começava a ouvir os ora pro nobis de invocação a todos os santos da corte celestial. De ouvido, já eu sabia a lengalenga e a música de cor. Faltava-me ver. Um dia, disse não à preguiça, levantei-me e fui ver o espectáculo: duas filas de mulheres, embiocadas nos seus xailes de cores escuras, com velas acesas na mão, a engrolar padre-nossos e invocações a todos os santos, numa melopeia monótona de ritmo cadenciado: “Santa Maria, ora pro nobis”, “Santa Luzia, ora pro nobis”, “S. Barnabé, ora pro nobis” e por aí adiante… Cada série de dez santos invocados tinha direito a um padre-nosso e à cantoria do “Avé, Avé Maria”. Fiquei a conhecer mais alguns santos cujos nomes nem me passavam pela cabeça. Até às Termas, eram três quilómetros, mas havia santidade para todo o percurso. E mais que fosse!
A maioria do cortejo era constituída por mulheres passantes dos sessenta anos. Gente nova, pouca, e homens podiam contar-se pelos dedos. Como a manhã estava chuviscosa, parecia uma procissão de cogumelos falantes, iluminados por pirilampos.
A ladainha foi-se afastando, os ora pro nobis foram-se tornando mais longínquos, e eu voltei para a cama, que aquilo não era hora decente para um cristão estar a pé. Entrei nos braços de Morfeu e desforrei-me. Mas sonhei com S. Barnabé que se transformou num despertador e me acordou às 11 horas da madrugada!
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