NAZARÉ OLIVEIRA

COISAS E GENTE DA MINHA TERRA - A Feira Velha

Não é a primeira vez que escrevo sobre a FEIRA VELHA, que preenche boa parte das minhas recordações da infância, da adolescência e mesmo de adulto. Sempre que evocamos o passado, novas lembranças afloram à nossa mente. Por isso, reformulo agora o que há décadas escrevi. A fotografia que ilustra este texto tem 100 anos. Foi editada em 1919 pela então grande firma sampedrense Sebastião & Sobrinhos.

A Feira Velha era na Ponte. Mas tinha os seus tentáculos. Para quem ia da Vila, o primeiro contacto com a Feira começava a partir da Casa dos Monizes, o Solar de Palme. Eram os tentáculos da miséria: a fila de pedintes que, ao longo da estrada, estendiam a mão à caridade, exibindo as suas chagas e entoando a sua cantilena milhentas vezes repetida: “Dai uma esmolinha ao ceguinho, por alma de quem lá tem! Tenha dó do aleijadinho, por amor de Deus!” Alguns já tinham lugares cativos: as alminhas, o portão da Caldeiroa, a entrada para o Lenteiro do Rio e outros lugares. Havia entre eles um acordo tácito, que respeitavam, como honestos profissionais da mendicidade.

À medida que nos aproximávamos, a ladainha dos pedintes ia sendo abafada pelos ruídos e pregões da Feira, alguns ampliados pelos megafones e altifalantes. A Feira estendia—se pela calçada acima, que só não era um plano inclinado porque o piso tinha muitas irregularidades. Mas lá inclinado era, porque, entre o Fundo e o Alto da Feira, havia considerável desnível. Ali, ou se subia ou se descia!

Logo à entrada, subia-se a rua da esquerda que começava atrás da fonte. Era a rua do peixe. Filas de caixotes, com destaque para a sardinha, que era vendida avulso ou à caixa, para salgar. Pontificavam os Farrecas e os Choupeiros (de Oliveira de Frades), anunciados pelo pregão da Maria Redonda que cirandava abaixo e acima com os seus meneios de varina.

Ao cimo, era a feira do gado. No ar, uma miscelânea de sons: mugidos e chocalhos de bois e de vacas, relinchos de cavalos, campainhas de cabras, roncos de porcos cevados e prontos para a faca, grunhidos de leitões, gargalhadas e palavrões dos homens, tudo de mistura; marchantes de largos chapéus, apoiados no marmeleiro miravam os animais com olhos conhecedores e preparavam a estratégia para a negociata, mesmo que fosse preciso enganar o parceiro; depois de muito regatear, fechado o negócio, trocava-se o gado pelas notas, contadas a cuspo, e selava-se o contrato com uns copos.

Cada zona da Feira tinha cenários diferentes. Mudavam as mercadorias, mudavam as personagens, compradores e vendedores, outros ruídos, outros sons, outros comparsas. Vendia-se de tudo: galinhas, patos, perus, coelhos, toda a bicharada; batatas, cebolas, grão-de-bico, abóboras, couves para plantar, legumes vários, sementes, frutas de toda a qualidade, desde as cerejas da Primavera aos melões e melancias do Verão, às castanhas do Outono, aos pinhões da Natal, tremoços, azeitonas, figos de seira, queijos, marmeladas, mel, cavacas e outras doçarias, com destaque para as triga-milhas das Vicentas e para o pão-de-ló da Julinha, presuntos, enchidos, tripas; petisco de lamber os dedos eram as enguias da Murteira, vendidas à fiada ou fritadinhas à vista por mulheres que vinham da Beira-Mar. E, como a azáfama da feira trazia a fome e a sede, lá estavam os lugares de comes e bebes, desde os ficavam ao ar livre às tascas do Girão, do Salgueiro, do Asa Negra, do Teles, do Barreto.

A escorrer pela calçada, que às vezes custava mais a descer do que a subir, estendiam-se as tendas, com os seus toldes, numa variedade de cores. Amontoavam-se as mercadorias: mantas, lençóis, cobertores, fazendas, chitas, cotins, riscados, flanelas, surrobecos, casacos, calças, samarras, camisas, ceroulas, cuecas, aventais, toalhas, tapetes, de mistura com botões, pentes, escovas, agulhas, alfinetes, gaitas, pífaros e outros brinquedos e quinquilharias; para bonés e chapéus, lá estava o Freitas, com o Xalau a fazer o tirocínio; e não faltavam os cabedais: malas, carteiras e calçado, desde as chancas e tamancos de proa do António Matias e do Rodrigo Serguilha às botas cardadas, sapatos de atanado e de calfe, alparcatas de panos, sandálias, chinelos, de vizinhança com cestos, canastras e chapéus de palha; o vasilhame era de barro, de alumínio e de lata (lá estava o Zé  Latoeiro), penicos, panelas, tachos, alguidares, púcaros, assadeiras e outros utensílios de cozinha, toda a ferramenta de mesa, garfos, colheres, facas; na zona dos ferros, enxadas, foices, machados, podoas, picos, picaretas, grelhas, fogareiros, brochas para tamancos, ratoeiras…

Ao fundo da Feira, ficavam os ourives, onde se mercavam as arrecadas, o cordão ou a corrente de ouro que se exibiam nos dias de festa e serviam, em último recurso, para acudir a uma aflição. Nos oculistas, os mais pitosgas faziam experiências para acertarem com as cangalhas que lhes permitissem enxergar melhor. No fotógrafo “à la minuta”, o velho Brás tirava fotografias para a posteridade.

Em matéria de “Literatura”, tudo se reduzia ao “Borda d’água” e ao “Seringador”, que todo o lavrador que se prezava adquiria, consoante o grau de credibilidade atribuído a cada um.

A Feira tinha os seus pregões: era a voz dos cauteleiros — o roufenho Salgada e o Maneta a anunciarem a taluda— das peixeiras, das tendeiras, na maioria mulheres, dos vendedores da banha da cobra, que se esfalfavam para convencer os ouvintes da excelência do seu produto. Quem não se lembra daquele a quem chamavam o Chá Vitaminas, e da sua companheira a sampedrense Rosinha Petica, na sua carrinha, de altifalante em punho, demonstrando por A mais B que o seu chá curava todas as maleitas?

E não faltavam aqueles que, a troco de umas gaitadas, procuravam angariar uns tostões para assegurar a sua precária existência: era o homem da concertina, o ceguinho da guitarra a acompanhar a fadista improvisada que cantava histórias de amor e desgraça, cuja letra vendiam em folhetos impressos. Às vezes, apareciam os robertos, com a sua voz esganiçada e as suas pantominas que acabavam sempre à traulitada e com derrota do malandro.

A Feira não era só lugar de mercado. Era também local de encontro, convívio e festa. Na terceira segunda-feira de cada mês, ali caía gente de toda a região, deste o rude serrano mais ou menos endomingado ao mais urbanizado vilão. Ali se desenferrujava a língua, se faziam e desfaziam namoros, se iniciavam querelas ou se faziam as pazes, quando não se surripiavam os incautos. Normalmente, a Feira era pacífica. Mas, quando havia sarrafusca, lá estava o Silvério “Cara d’aço” com a patrulha da G.N.R.

E, no meio do alarido e balbúrdia da Feira, o S. Bartolomeu, resignado, tapava os ouvidos aos palavrões e fechava os olhos às trapaças. Impunha-lhe a cumplicidade o fraco que o bom do santo sempre teve pelos da Ponte. E era se queria que não lhe cortassem as esmolas e continuassem a fazer-lhe a festa!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *