“Nunca deixar para trás os mais necessitados, dando o apoio e a dignidade que se exige e tratar por igual todos os munícipes“
Entrevista ao Presidente da Câmara Municipal de Vouzela, Rui Ladeira

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer” será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!
• Paula Jorge
Ficha Biográfica
Nome: Rui Ladeira
Idade: 44 anos
Profissão: Eng. Florestal
Livro preferido: “Uma verdade inconveniente” – Al Gore
Personalidade que admira: Prof. Marcelo Rebelo de Sousa e Prof. Jorge Paiva
Paula Jorge (PJ) – Muito obrigada, Senhor Presidente, Rui Ladeira, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”. Comecemos pelo princípio.
Como sabe, no dia 1 de outubro de 2017 a população escolheu os seus líderes autárquicos. Ao consultar os totais das Autárquicas, damos conta que houve cerca de 33% de abstenção em Vouzela, o que parece algo significativo. Como interpreta este valor?
Rui Ladeira (RL) – A abstenção pode ter muitas e diversas interpretações, políticas e circunstanciais! Importa dizer, por exemplo, que são as eleições onde há menos abstenção, normalmente não só em Vouzela, como no país, relativamente a outras eleições. A interpretação circunstancial julgo que justifica uma parte significativa das abstenções que se verificam sempre: ausência do eleitor por estar a trabalhar temporariamente fora do país ou fora do território onde exerce o seu direito de voto e não tem condições práticas de exercer esse direito de forma eficaz e rápida.
Outro fator que influencia também, no meu entender, tem a ver com a população que consta nos cadernos eleitorais e que sendo bastante envelhecida, não pode deslocar-se ou a saúde já não lho permite. Estes são dois exemplos que são importantes. Outros diversos haverá que têm a ver com a generalização da descrença na política e julgo que também deveria haver mais formação política e de cidadania nos planos curriculares para os nossos jovens.

PJ – Que balanço faz deste último ano à frente do executivo do município de Vouzela?
RL – Um balanço positivo, mas muito, muito difícil! Eu e a minha equipa tomámos posse no dia 14 de outubro de 2017 e no dia 15 acontece a maior catástrofe de que há memória em Vouzela e na região, uma das mais destruidoras e nefastas no país.
Mesmo assim, prestámos toda ajuda e apoio possível à nossa população: na recuperação de aproximadamente 50 primeiras habitações, apoio na recuperação das mais de 40 empresas, explorações agrícolas onde foram afetadas mais de 1000 famílias, mais de 200 currais e edifícios apoiados com telhas e materiais. A entrega de quase 200 pequenos ruminantes e 10 bovinos, um apoio importantíssimo na recuperação imediata do efetivo animal às nossas populações que ficaram muito afetadas e depauperadas. Mesmo assim, com esta hecatombe, mantivemos o nosso programa eleitoral tal qual estava pensado e sufragado. Mantivemos todas as obras em curso, perspetivadas e contratualizadas, assim como outras que candidatámos entretanto, que foram aprovadas e que queremos executar, seja na área de abastecimento de água, saneamento básico, regeneração urbana ou infraestruturas, como por exemplo de ampliação das zonas industriais. Só nestas áreas executámos, ou estamos para executar, vários milhões de euros de investimento. Somos o segundo concelho do país, dos 164 concelhos de baixa densidade, que captou mais investimento nos anos de 2017 e 2018.
Estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para recuperar o concelho depois destes incêndios, mas ao mesmo tempo resolver problemas infraestruturais e ainda colocá-lo no patamar de excelência nalguns setores. Um exercício muito difícil, mas que não regateamos esforços para tentar e lutar. Este trabalho que se deve sobremaneira à minha equipa, aos colaboradores da CMV, associações do concelho, instituições públicas e privadas, empresas e população em geral, ou seja, um esforço coletivo de todos.
PJ – Descreva o percurso da sua função relativamente àquelas que foram as suas prioridades.
RL – Primeiro: Ação social – nunca deixei para trás os mais necessitados, dando o apoio e a dignidade que se exige e tratar por igual os munícipes, isto, muitas vezes, faz-se unindo esforços através das boas vontades.
Segundo: A questão da Educação, criando as melhores condições ao nível do ensino. Gastámos 1,1 milhões de euros na Educação, o que reflete a importância que damos à Educação.
Terceiro: Os serviços básicos e as infraestruturas.
Quarto: Inovação – a afirmação de um território pela inovação e boas práticas ambientais.
PJ – Fale-nos um pouco de alguns entraves que possam apresentar-se como fatores impeditivos daquilo que pretende fazer pelo município.
RL – A falta de recursos financeiros para responder às necessidades básicas, bem como o facto de o Município, muitas vezes, ter de se substituir à Administração Central naquilo que são as suas competências e que não as executa, nomeadamente nos domínios da ação social, educação, saúde, etc.
A autonomia financeira do nosso Município está dependente em cerca de 60% das transferências do orçamento de estado. Os impostos diretos cobrados pelo Município (IMI, IMT e IUC) representam cerca de 9% do orçamento anual (inferior a 1M€)!
O investimento tem de ser feito com recurso aos fundos comunitários ou com recurso a empréstimos bancários.
A falta de estratégia para o mundo rural, em particular após o brutal impacto negativo dos últimos incêndios, que resultou num grave problema de ordenamento, segurança e definição equilibrada da paisagem e dos ecossistemas.
PJ – Um bom líder não pode estar sozinho. Quer falar-nos da sua equipa?
RL – Tenho uma equipa fantástica, gente boa, honesta, leal, competente e determinada. Com formações profissionais e experiências diversas, o que acrescenta imensa qualidade à equipa e às valências que necessitamos. Têm, acima de tudo, muita sensibilidade e clarividência para fazer um serviço público exemplar.
PJ – Quer elencar, de forma resumida, as grandes obras que estão em curso?
RL – Em 2019, o nosso orçamento e grandes opções do plano prevêem o maior valor de que há memória, quase 16 milhões de euros, dos quais mais de 6,7 milhões são direcionados para despesa de capital, ou seja, investimento efetivo, representando 42 %. Na prática, quer dizer que vamos executar novos investimentos e executar outros que transitaram do ano anterior, nomeadamente o abastecimento de água em Pés de Pontes, Santa Comba, Corujeira, Chã, Ramalhal, Meã, rede de saneamento em Fataunços, Ventosa, Cambra, S. Miguel do Mato, Queirã e Paços de Vilharigues, no desenvolvimento económico, obras de capacitação e ampliação das três zonas industriais (Campia, Queirã e Vouzela); no apoio aos empresários que se encontram instalados no concelho, uma bandeira deste executivo, procurando criar postos de trabalho, riqueza e fixando não só quem está, mas atraindo também pessoas que venham residir para o nosso concelho.
No desenvolvimento turístico, nomeadamente com a reestruturação de cinco rotas culturais e temáticas ligadas a cada uma das épocas históricas, a musealização da Torre Medieval de Alcofra, o concurso para a ecopista do Vouga no troço entre Vouzela e as Termas de São Pedro do Sul, e, no âmbito da CIM Viseu Dão Lafões, o projeto de recuperação do trilho da antiga linha do Vale do Vouga entre Viseu e Sever do Vouga para criarmos um produto para bicicleta e caminhada. A este nível temos também um outro projeto em conjunto com os municípios de Oliveira de Frades e Tondela para recuperar e preservar as Aldeias da Serra do Caramulo.
A regeneração urbanística da vila de Vouzela com a criação de estacionamento e o Polo da Criatividade/Borboletario, a requalificação da Escola Secundária de Vouzela e do jardim de infância de Campia, a colocação de 23 ilhas ecológicas e 50 contentores por todo o concelho; a requalificação da rede viária em várias localidades do concelho; a beneficiação de caminhos florestais e açudes; limpeza, criação de faixas e estabilização de taludes das áreas afetadas pelos incêndios, ampliação da iluminação pública no concelho e a renovação de equipamentos e infraestruturas públicas municipais, entre outros investimentos.
PJ – Muito há por fazer, quais os projetos que o executivo tem ainda para concretizar?
RL – Muitos projetos e ideias para desenvolver o nosso concelho, em diversas dimensões: infraestruturas básicas, projetos estruturantes e inovadores para criar mais atratividade e qualidade de vida para a nossa população.
PJ – Qual o sentimento que o domina quando está no terreno ao serviço da população que o elegeu?
RL – No que têm a ver com a minha missão de autarca, destaco em particular dois sentimentos: em primeiro lugar, o gosto no contacto com as pessoas. Aprecio ouvir as pessoas, aprender também com elas e contribuir para o seu bem estar e a sua felicidade. O segundo, trabalhar para desenvolver o nosso território.

PJ – O que é que ser Presidente de um concelho mudou em si, enquanto pessoa?
RL – É difícil fazer essa avaliação! Mas, posso afirmar que na minha postura, seja na forma de ser ou de estar, considero que mantive os meus valores inalterados e continuo a ser a mesma pessoa que era antes de estar nestas funções.
Posso afirmar que o meu pensamento, a entrega e a dedicação passou a ser total com o meu concelho e com os Vouzelenses, dando tudo o que sei e o que posso dar.
PJ – Muitas histórias terá guardadas, quer partilhar connosco aquela que mais o marcou no seu percurso de líder do executivo do município de Vouzela ao longo deste último ano?
RL – A entrega das primeiras habitações depois dos incêndios, foi, sem dúvida, um momento muito marcante e emotivo.
PJ – Acha que os jovens acompanham a política e dão valor a este setor da sociedade?
RL – Infelizmente, muitos jovens perderam e perdem a confiança nas instituições e nos políticos que escolheram para os representar e para definir os deveres e os direitos dos cidadãos. As sucessivas abstenções nos diversos atos eleitorais traduzem, de forma clara, este sentimento. Os políticos têm que repensar a forma como fazem a política. Contudo, votar é a melhor arma que os jovens têm. É a melhor forma de se poderem expressar e de exigir mudanças.
A política tem de fazer parte da educação dos jovens. Ao contrário de os desmotivarem, fazendo-se passar a ideia de que os políticos são todos iguais, deveria explicar-se-lhes a história toda para que possam participar no futuro e ser parte integrante da sociedade em que se inserem.
Também a família e o grupo de amigos são importantes para o interesse na política e para ser participativo na comunidade.
PJ – Fale-nos um pouco das alternativas que o seu executivo apresenta para os jovens no setor da cultura e do entretenimento?
RL – A autarquia pretende facilitar o acesso à cultura não só aos jovens, mas a todos os munícipes, estimulando o conhecimento e o aumento da frequência nas manifestações culturais, como fator indutor da qualidade de vida e de lazer, trabalhando em rede com as diversas coletividades e instituições, estabelecendo parcerias e apoiando projetos de diversas naturezas, relevando-se as centenárias Festas do Castelo, eventos gastronómicos, desportivos, o Dia Municipal da Juventude e da Amizade, entre outras atividades e projetos.
PJ – Além da política, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?
RL – Além da família que prezo, gosto muito do desporto: futebol, andebol. Aprecio de forma particular a nossa história, a nossa identidade. Gosto de fazer fotografia e desfrutar das nossas paisagens.
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
RL – Determinado.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
RL – Gratidão. Sou grato por poder fazer aquilo que gosto, por servir a minha terra e as minhas gentes!
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Senhor Presidente! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA!
Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores e aos munícipes em geral:
RL – Uma mensagem de esperança e de confiança! Esperança na recuperação do nosso concelho, na superação das dificuldades. Confiança na capacidade de cada um e num todo coletivo que já se verifica na recuperação do concelho, depois dos últimos incêndios. E ainda confiança no futuro que nos trará oportunidades de reatar as nossas vidas e, naturalmente, garantir mais felicidade e mais prosperidade.
A confiança e a esperança começam em cada um de nós e esse caminho já começou! Considero, sinceramente, que estamos, em conjunto, a demonstrar ao país e ao mundo que somos um povo de fibra e que não baixamos os braços, posso afirmar sem pruridos que estamos ao nível dos melhores de Portugal e do mundo.
A todos os leitores da Gazeta da Beira, boas leituras e um ótimo Ano de 2019 para todos.
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