Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Peritos em tragédias acontecidas
Quando há um incêndio, uma estrada que desaba ou um helicóptero que cai as televisões enchem-se de especialistas que sabem tudo sobre o assunto e conhecem tudo o que poderia ter sido feito para evitar a tragédia.
Fico, sempre, admirado como, meia dúzia de canais de televisão, conseguem encontrar especialistas para falarem dias inteiros.
É impressionante o que estes especialistas sabem e os documentos a que têm acesso. São relatórios técnicos, informações dos serviços, comunicações feitas por cidadãos a alertar para a situação, etc…
Não deixa de ser estranho que num país em que há tantos peritos na prevenção de tragédias estas continuem a acontecer ao ritmo a que acontecem.
Um tópico recorrente nos seus discursos é que as entidades oficiais, os ministros e o primeiro-ministro foram incompetentes por não terem feito o que era preciso para evitar a tragédia.
Dramático é que quando não há tragédias não se veem na televisão estes especialistas a identificarem os riscos existentes e a proporem as medidas que podem e devem ser tomadas para as evitar ou pelo menos a denunciarem a incompetência das entidades responsáveis.
Parece óbvio que o governo e os organismos públicos têm as suas falhas mas também estes especialistas estão a falhar e a não cumprirem as suas responsabilidades para com a sociedade. Se têm o conhecimento dos riscos parece evidente que deveriam usar esse conhecimento e o acesso que têm aos meios de comunicação social para avisarem as pessoas e chamarem à responsabilidade os organismos do estado.
Não tenho dado conta que o façam, talvez o façam tão baixinho que ninguém houve. Na prática, embora, tendo todo o conhecimento das situações se não falam alto fazem o mesmo que os organismos do estado: nada.
O nosso país está muito precisado de peritos em evitar tragédias. Infelizmente, temos poucos peritos em evitá-las e muitos peritos em comentá-las depois de acontecidas.
Estes peritos lembram-me sempre o cidadão que perante um acidente de viação tem 10 ideias brilhantes sobre as causas, 20 ideias sobre como poderia ter sido evitado e claro também um orçamento dos prejuízos causados e do custo da reparação do carro.
Num país em que a moda é dizer mal do governo e achar que todos os organismos dos estado são incompetentes e não fazem o trabalho que deveriam fazer, teremos de aceitar como normal que não façam o que deviam e, muitas vezes, podiam.
Moda, também, é atribuir grande valor à opinião dos ditos especialistas pelo que é uma pena, que estes especialistas não usem o seu saber e os seus recursos para prevenir situações que têm custado a vida a muitas pessoas.
Curiosamente, apesar de atribuímos ao estado a maior incompetência e termos na maior consideração a competência dos especialistas tendemos a achar que o estado é o único responsável por tudo o que acontece.
Quando ouço os peritos a falarem do que poderia ter sido feito para evitar uma dada tragédia, seja o incêndio, a queda do helicóptero ou a derrocada da estrada, sinto que eles falam como se fossem extraterrestres convidados para comentarem a estupidez dos humanos.
Falam do que acontece como se não fizessem parte da situação, mas fazem e são corresponsáveis por ela.
Tenho dúvidas que as televisões queiram dar um contributo sério para a prevenção dos incêndios ou se preferem poder utilizá-los como material de “trabalho”, mas seria muito interessante e, provavelmente muito útil, se pedissem aos seus especialistas em incêndios acontecidos para irem com um repórter pelo país dentro mostrar alguns locais onde o risco de incêndio é enorme e explicarem às entidades e às pessoas o que tem de ser feito antes que arda.
Janeiro de 2019
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