Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Todos somos migrantes
Quando ouvimos e vemos as notícias dos migrantes que procuram a Europa ou mais recentemente da caravana de migrantes que partiu das Honduras em direção aos Estados Unidos, parece quase que é a primeira vez que acontecem fenómenos destes.
Na verdade não há nas migrações em massa nada de novo.
As migrações de hoje em dia quando comparadas com outras migrações ocorrida no últimos 2000 anos, se tivermos em conta a dimensão da população existente, vemos que já houve outras migrações muito maiores.
Dizem os historiadores que a nossa espécie surgiu em África e daí se foi espalhando por toda a Terra por sucessivas migrações que terão sido umas voluntárias e outras forçadas.
Umas pessoas terão ido sozinhas, mas outras vezes foram famílias, pequenos grupos ou mesmo povos inteiros.
O fim do império romano está ligado aos seus problemas internos, mas também aos problemas que lhe foram causados pelas migrações dos povos do centro e do norte da Europa, que ficaram nos nossos livros de história conhecidos como os povos bárbaros, tendo os visigodos e os suevos chegado ao norte da Península Ibérica.
A Hungria, que hoje rejeita ativamente os migrantes, foi fundada há 900 anos pelos magiares que emigraram do que é hoje a Rússia e se fixaram naquele teritório, que era pouco habitado. Na mesma época tribos vizinhas dos magiares migram a para norte, constituindo hoje a Finlândia.
Os irlandeses que emigraram para os Estados Unidos, quando da grande fome na Irlanda, se tivessem ido a pé e todos juntos dariam uma caravana bem maior do que a que segue a pé da América Central para os Estados Unidos.
Se na década de 1960 os portugueses que foram para França a salto, em vez de terem ido cada um por si, tivessem organizado uma caravana teria sido gigantesca.
Pela nossa situação geográfica e económica Portugal não é hoje um destino atrativo para os migrantes, mas em tempos recentes vivemos a migração em massa para Portugal das pessoas que regressaram ou fugiram sobretudo de Angola ou Moçambique.
Está por fazer o balanço e uma análise do impacto que teve no desenvolvimento do país essa onda de migrantes.
A mudança do regime político, a abertura de Portugal ao mundo e a subsequente entrada na União Europeia por, si sós, mudariam a nossa sociedade, mas o choque provocado pela chegada de cerca de um milhão de pessoas teve, necessariamente, um efeito tremendo, e pelo que se viu positivo, na economia e na sociedade.
Embora a larga maioria dessas pessoas tivesse família direta em Portugal e falassem a mesma língua, coisas que em muito facilitaram a sua integração, isso não impediu que a nossa sociedade tenha reagido negativamente à sua chegada e aos apoios que lhe foram dados. Passados 40 anos ainda há pessoas que expressam sentimentos negativos sobre os “retornados”.
Todos os migrantes procuram melhores condições de vida ou de segurança.
Parece óbvio que, pelas condições sociais, económicas e de segurança, a Europa e os Estados Unidos sejam os lugares prefridos por quem é forçado ou decide migrar.
Além destas migrações exitem, muitas vezes provocadas pela guerra, menos vistosas, e ignoradas pelas notícias.
Há tempos uma colombiana, que mora em Portugal, dizia-me que dentro da Colômbia há 6 000 000 de pessoas deslocadas por causa da guerra civil que durou décadas.
Enquanto houver guerras e desigualdades gritantes, haverá migrações.
Portanto parecem restarem apenas duas opções:
– trabalhar para a paz e o desenvolvimento de todos os povos
– acolher o melhor possível os que procuram refúgio junto de nós.
Tudo o resto são más ideias, que a prazo só farão aumentar o problema.
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