Entrevista a Isabela Maria França e Silva de Almeida
“Gente Que Ousa Fazer” - Texto de Paula Jorge
Foto de Fernando Morgado
Olá! Estarei convosco para responder a mais um desfio. Espero não vos desiludir.
A rubrica “Gente Que Ousa Fazer” será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!
Ficha Biográfica
Nome: Isabela Maria França e Silva de Almeida
Idade: 58 anos
Profissão: Médica de Saúde Pública
Livro preferido: Não consigo nomear um livro. Depende da idade que tinha quando li, do meu estado de espírito…
Personalidade que admira: Nelson Mandela
Muito obrigada, Senhora Doutora, por mostrar disponibilidade para esta entrevista, a segunda da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”. Comecemos pelo princípio.
Paula Jorge (PJ) – Com que idade se iniciou na carreira da medicina?
Isabela Maria França e Silva de Almeida (IMFSA) – Aos 25 anos de idade.

PJ – Descreva o seu percurso profissional.
IMFSA – No final da licenciatura de 6 anos na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em 1985, iniciei o então Internato Geral em fevereiro de 1986 no Hospital de Vila Nova de Gaia, que teve uma duração de 24 meses. No final de 1988 efetuei o exame nacional de acesso à especialidade, tendo iniciado o Internato da Especialidade em janeiro de 1989 no Centro de Saúde de Guimarães, com a duração de 3 anos. No âmbito deste internato estive um ano a frequentar formação específica na Escola Nacional de Saúde Pública, em Lisboa, no ano letivo 1990/1991. Concluí a especialidade em janeiro de 1992. Em 1993, após concurso de provimento, fiquei colocada em Lamego, onde exerci funções como médica de saúde pública e Delegada de Saúde até final de outubro de 1995. Fui transferida para S. Pedro do Sul onde iniciei funções em 2 de novembro de 1995. Desde 2008 foram ocorrendo alterações na organização dos serviços do SNS que têm determinado que a área de intervenção não se limite a um concelho, mas se estenda a vários concelhos. Assim, desde 2014 sou Delegada de Saúde nos concelhos de S. Pedro do Sul, Castro Daire e Vouzela.
PJ – Qual o sentimento que a domina quando está ao serviço da medicina?
IMFSA – O sentimento de enorme responsabilidade pela proteção e promoção da saúde da comunidade, sabendo que a saúde pública é um determinante muito importante para o bem-estar, o crescimento e o desenvolvimento civilizacional, existindo um enorme potencial para melhorar a saúde dos nossos concidadãos.
PJ – Muitas histórias terá guardadas, quer partilhar connosco aquela que mais a marcou no seu percurso profissional de médica?
IMFSA – Devo referir que as mais marcantes foram histórias com fim triste, nomeadamente morte, que envolveram crianças ou jovens, algumas associadas a famílias com enormes carências socioeconómicas, onde faltavam bens básicos. Felizmente que nos últimos anos estas situações foram sendo mais raras ou mesmo inexistentes.
PJ – Terá noção, certamente, que ser médico é ser entrega, é salvar vidas, é colocar-se ao serviço do outro. O que é ser médico para si?
IMFSA – Como médica de saúde pública, os atos clínicos dirigidos a um indivíduo são menos frequentes que as atividades dirigidas à comunidade. Contudo, sempre que tenho esta intervenção mais individual procuro “colocar-me na pele do outro”, ser atenciosa, empática e procuro fazer pelo outro o que gostaria que me fizessem quando estou no papel de utente/doente.
PJ – Em seu entender, como se encontra o sistema nacional de saúde, atualmente, em Portugal? Com saúde ou doente?
IMFSA – O sistema de saúde português foi sofrendo reformas ao longo de todo o século 20. Após o 25 de abril de 1974 surgiu e consolidou-se o Serviço Nacional de Saúde com cuidados de saúde universais, gerais e tendencialmente gratuitos. Atualmente, o sistema nacional de saúde é um sistema misto, assente na complementaridade entre os setores público, social e privado. O Serviço Nacional de Saúde tem-se ressentido, tal como outros setores da sociedade, das dificuldades financeiras que o nosso país tem vivido. Contudo, a evolução vai no sentido da manutenção da referência ideológica do SNS com ganhos em eficiência, com reformas significativas nos Cuidados de Saúde Primários (criação das USF e da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados).
PJ – Que aspetos ainda precisariam de ser melhorados no sistema nacional de saúde?
IMFSA – Portugal, no que respeita à saúde, teve uma evolução muito importante, que fica demonstrada pela melhoria dos indicadores de saúde, como se verificou, por exemplo, com a mortalidade infantil. Considero, contudo, que fazer saúde pública, não consiste somente em colocar as tecnologias mais modernas ao serviço da população. Temos que ter em atenção as limitações de muitos, sobretudo da nossa população mais idosa, com carências económicas e daqueles que residem nas regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos, onde atualmente se concentram a maior parte dos recursos de saúde. Melhorar continuamente a qualidade no sector da saúde significa tudo fazer, diariamente, para que os cuidados prestados sejam efetivos e seguros; para que a utilização dos recursos seja eficiente; para que a prestação de cuidados seja equitativa; para que os cuidados sejam prestados no momento adequado; para que a prestação de cuidados satisfaça os cidadãos e corresponda, tanto quanto possível, às suas necessidades e expectativas.
PJ – O serviço nacional de saúde, nomeadamente a saúde pública, estabelece algum tipo de protocolo com as autarquias, escolas, lares, associações ou até comércio local?
IMFSA – Sim, a saúde pública desenvolve-se com e para as comunidades. Os serviços locais de saúde pública têm vindo a desenvolver um conjunto de projetos que visam intervir sobre determinantes de saúde na área alimentar e de atividade física, responsáveis por algumas das patologias mais prevalecentes na nossa população e por anos de vida potencialmente perdidos, associados à mortalidade prematura, procurando naturalmente melhorar estas condições. Esses projetos só são possíveis com a colaboração de vários parceiros e com o estabelecimento de compromissos, num trabalho multissetorial e interdisciplinar, em equipas. São objetivos destes projetos a modificação da oferta alimentar de determinados alimentos, em particular os que apresentam elevado teor de açúcar, sal e gordura, incentivando ações de reformulação nutricional dos produtos alimentares e capacitando os cidadãos e profissionais que trabalham ou influenciam o consumo de alimentos, para escolhas alimentares saudáveis. As equipas de saúde englobam, elas mesmas, médicos de saúde pública, técnicos de saúde ambiental, enfermeiros de saúde comunitária, nutricionistas. Temos estabelecido parcerias com as Autarquias, os Agrupamentos de Escolas e as Associações de Pais, as Instituições de Solidariedade Sociais, os Industriais da Panificação. Passo a nomear alguns dos projetos já implementados: “Pão.come” – os industriais da panificação aderentes disponibilizam pão com teores de sal iguais ou inferiores a 0,8g por cada 100g de pão; “Sopa.come” – redução do sal adicionado na sopa, nas cantinas escolares; “Oleovitae” – controlar os compostos polares nos óleos de fritura; “Lanche.come” – intervenção para a melhoria nutricional da composição dos lanches das crianças; “Mochilas perfeitas, costas direitas” – avaliação e sensibilização para o excesso de peso das mochilas, “Vending.saúde” – intervenção para a melhoria da qualidade nutricional dos produtos disponibilizados nas máquinas de venda automática. Temos ainda, em fase de preparação, dois projetos para a promoção da atividade física em ambiente escolar que são: “Crescer Káfora” e o “Salta.acorda”.
As Câmaras Municipais são parceiros estratégicos e imprescindíveis da Saúde, na implementação de medidas que incluam a promoção da alimentação saudável e da atividade física, devendo as mesmas ser consideradas como eixos prioritários de intervenção no Plano Municipal de Saúde, indo ao encontro dos objetivos traçados pelo Governo Português, de incentivar o consumo alimentar adequado e a consequente melhoria do estado nutricional dos cidadãos, bem como a prática de atividade física, com impacto direto na prevenção e controlo das doenças crónicas.
PJ – Que conselhos daria aos nossos leitores em nome de uma boa saúde física e mental?
IMFSA – A saúde começa em casa, na família, na comunidade e na sociedade, por isso todos somos chamados a promover uma cultura de cidadania que vise capacitar os cidadãos, de modo que se tornem mais autónomos e responsáveis em relação à sua saúde e à saúde de quem deles depende. Obteremos ganhos em saúde se conseguirmos controlar o excesso de peso e a obesidade, reduzir/eliminar o consumo de tabaco e de álcool, diminuir o consumo de sal e de açúcar, praticar atividade física regular, dormir o suficiente, conviver socialmente evitando o isolamento.
PJ – Além da medicina, que outras paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?
IMFSA – Penso que sou, sobretudo, uma mulher de família. Estou feliz quando tenho momentos de convívio familiar, não só com as minhas filhas, genros, e agora neto, mas também com a família mais alargada, pais, irmãos, tios, sobrinhos, primos… Considero que tenho muita sorte por ter perto e poder reunir com frequência os meus familiares de quem gosto muito.
PJ – Imagine a sua vida sem a medicina, como seria?
IMFSA – Penso que gostaria de ter uma atividade relacionada com o ambiente, eventualmente com a agricultura, algo ligado à terra.
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
IMFSA – Grata à vida.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
IMFSA – Gosto de viver e considero-me uma pessoa com sorte porque eu e os meus temos tido saúde, que considero o maior bem.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Senhora Doutora! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA!
Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.
IMFSA – A minha mensagem é de disponibilidade total para ajudar quem precisar de mim, enquanto cidadã e médica.
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