Ana Penha / Patrícia Corigo (Eng.as do Ambiente)
Já Ouviu Falar de Economia Circular?
Está na ordem do dia. Tem sido discutida em muitos fóruns e existe inclusivamente o Plano de Ação para a Economia Circular em Portugal: 2017-2020. Esse plano começa assim: “Do ponto de vista ambiental, estamos a viver a crédito”.
Na economia circular, que se pretende implementar, o valor dos produtos e materiais é mantido na economia por tanto tempo quanto possível e a utilização de recursos e a produção de resíduos são minimizadas.
E quem conhecia muito bem esse princípio? R: Os nossos avós! Ainda se lembra como a geração dos nossos avós tentava recuperar tudo? Os sacos de plásticos eram lavados para serem utilizados de novo; os restos de refeição eram dados ao cão e ao gato; Os pedaços de pão eram tostados para fazer pão ralado para os croquetes. As fraldas eram de pano… Iam à modista para reformular os fatos, casacos, saias e vestidos. Os sapatos, os preciosos sapatos, eram estimados e, sempre que possível, arranjados com primor pelo sapateiro da rua.
Muita coisa mudou. Para melhor e para pior. Mas não se pode negar que as gerações anteriores tinham competências enraizadas no aproveitamento material.
A cultura do descartável instalou-se nas últimas décadas. O novo substitui o velho com a maior das facilidades… e o velho pouca idade tem! Está em voga a denominada economia linear: Extraem-se recursos naturais para fabricar produtos, que se usam e deitam fora.
Mas, é notório que esse modelo não funciona. Como diz o economista (e filósofo) francês Serge Latouche “quem acredita que um crescimento infinito é possível num mundo finito, ou é louco ou é economista”. Ainda para mais, vivemos altamente dependentes do exterior – das matérias-primas consideradas essenciais, a Europa apenas dispõe de 9% sendo as restantes importadas. Os mercados são instáveis. Os preços voláteis. E há um descontrolo das questões ambientais como sejam a perda da biodiversidade e as alterações climáticas.
Quer-se uma transição para uma economia circular. Mas esta economia circular, a ser aplicada a sério, alteraria de forma profunda a nossa maneira de estar, de viver.
Como consumidores, implicaria mudar as nossas escolhas: a forma como gerimos as nossas compras, a nossa alimentação, o nosso transporte, os materiais que já não precisamos. Essa gestão teria por base uma filosofia de vida que assentaria no bem global e duradouro ao invés do bem individual e de curto prazo. Efetivamente, mesmo agora, temos alguma margem para escolher o transporte com menor impacte ambiental, para reutilizarmos produtos, para usarmos racionalmente a água, para não adquirimos o que não precisamos…
A responsabilidade individual é importante mas a economia circular é bem mais do que isso. É uma aposta no mercado: uma aposta no design dos novos produtos para que consumam menos materiais e para que durem mais tempo; uma aposta na utilização dos produtos como serviço. Como diz o atual Ministro do Ambiente, o berbequim com uma utilização média total estimada de 12 minutos é dos objetos mais inúteis. Há que usufruir dos materiais. Partilhar, reutilizar, prevenir.
Uma revolução ou não, a verdade é que muitas iniciativas têm sido avançadas. Exemplos positivos. É o caso da Fairphone que produz telemóveis modulares permitindo uma mais fácil substituição de peças, e sua reparação, visando uma maior duração; A Booking Drive dispõe de uma plataforma de aluguer de automóveis que possibilita aos proprietários rentabilizar o carro nas alturas em que não o usam e aos condutores o acesso prático a uma viatura mesmo que seja por um par de horas; A Fruta Feia criou um mercado alternativo para escoar as frutas e legumes “feias”, que não têm o calibre, cor e formato normalizado.
Muitas outras novidades surgirão. A Europa está focada e Portugal alinhado. Já agora, nesta nova economia é de salvar os sapateiros que no interior do nosso país são já uma espécie em via de extinção.
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