João Fraga de Oliveira
Brasil: renovar a alegria e a democracia?

“O Brasil é um país novo que se imagina velho…”
Esta frase é um excerto de um aforismo de um grande escritor e poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade[1].
“O Brasil é um país novo”. É esta a primeira ideia que nos vem do Brasil.
Mas não apenas porque, tornando-se independente ainda não há 200 anos[2], de facto, é um “país novo” relativamente à “velhice” de quase um milénio de Portugal.
Mas a ideia do Brasil como um “país novo” vem-nos, sobretudo, de um país em cujo imaginário predomina a alegria, a sensibilidade, a espontaneidade, a sociabilidade do povo, das pessoas, das brasileiras e dos brasileiros.
Mas, também, da música, da poesia, da literatura, da arquitectura, do pensamento de: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Erico Veríssimo, Clarice Lispector, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Chico Buarque, Óscar Niemeyer, D. Hélder Câmara,…
Para já não falar da natureza, da flora: luxuriante. E das cidades: maravilhosas.
Mas, pelos vistos, a compreensão do Brasil não pode ser assim tão intuitiva, tão emotiva, tão simples(ista). Como advertiu Tom Jobim[3], “o Brasil não é para principiantes.”
Não podemos garantir se terá sido este o sentido que lhe deu o seu autor mas, de facto, apesar de ser, objectivamente e no sentido das razões aduzidas, “um país novo”, o Brasil é um país de entendimento complexo, desde logo porque um país com muita diversidade: territorial, étnica, cultural, económica, social.
Contudo, tal como na natureza é a biodiversidade que lhe confere equilíbrio, nem por isso esta sociodiversidade terá sido impeditiva da construção de uma identidade nacional brasileira muito própria e, mais, à parte interregnos antidemocráticos ultrapassados[4] (?), poderá até ter sido um sustentáculo da democracia no Brasil.
De qualquer modo, neste sentido, pelo quanto a alegria (de que o Carnaval é uma expressão inigualável) é distintiva no imaginário que temos das brasileiras e dos brasileiros, o Brasil é “um país novo”. Ou, pelo menos, um país que se “supõe novo”.
Ora, é esse imaginário que choca com o que lemos, ouvimos e (tele)vemos por aí: “Brasil vota Bolsonaro porque tem medo”.
E duvidamos de que, “porque tem medo”, o Brasil vote em quem se candidata com estas referências publicamente assumidas:
-“O erro da ditadura foi torturar e não matar”;
-“Deveriam ser fuzilados uns 30.000 corruptos, a começar pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso”;
– “Mulher deve ganhar salário menor, porque engravida”.
Mas, depois, lendo e ouvindo mais, duvidamos ainda mais que, “porque tem medo”, o Brasil vote em quem se candidata defendendo abertamente o militarismo, a ditadura, a tortura, a censura, o racismo, a xenofobia, o sexismo, a desmatação da Amazónia e consequente perseguição implacável dos indígenas que lá vivem, a privatização geral dos serviços públicos.
Duvidamos de que, no Brasil, o medo apague a sensibilidade, a espontaneidade, a sociabilidade, a alegria.
Duvidamos de que, assim votando, as brasileiras e os brasileiros queiram afogar a sua alegria no fosso do medo colectivo.
Duvidamos de que as brasileiros e os brasileiros vão buscar no terror “solução” para o medo.
Duvidamos de que as brasileiras e os brasileiros, decidindo ainda em democracia (pelo menos formal),votem em quem, defendendo ostensivamente a ditadura, vise utilizar a democracia para dar cabo da democracia.
Não duvidamos de que houve erros (por acção e por omissão) dos últimos governos brasileiros, erros que, corroendo a confiança dos brasileiros nos governantes e nas instituições, explicam a desilusão, a “tristeza” (que, como diz a canção, ao contrário da felicidade, “não tem fim”…), política dos brasileiros.
Mas – continuamos a duvidar -, não será essa desilusão com a democracia muito, talvez na sua maior parte, fomentada pela subversão da informação (e, designadamente, por notícias falsas, vulgo “fake news”) nas redes sociais financiada por interesses económicos visando a orientação que lhes convém no poder político?
Duvidamos de que a actual dramática divisão entre si dos brasileiros resulte “apenas” dos precedentes reais erros político-governativos, se bem que estes não sejam escamoteáveis, visto que a cedência e até o apelo ao “autoritarismo com indícios pro-fascistas não nasce do nada em qualquer lado. Não faltam por aí disso exemplos (Trump e por aqui na Europa, nem é preciso nomear muito…).
Tanto ou mais do que isso, resulta da desinformação, da manipulação, enfim, da intoxicação desinformativa em crescendo (no Brasil e não só), fomentada por interesses económicos e pelo fanatismo religioso. Visando, com propriedade quanto a este último, “(…) confundir-lhes a linguagem, de sorte que já não se compreendam uns aos outros.”[5]
De qualquer modo, mesmo admitindo esses erros políticos precedentes, (ainda) podem os brasileiros resolvê-los em democracia.
E não, claramente, aceitarem propostas de saída da democracia, propostas de ditadura.
Admite-se que haja por aí quem pense e até diga, referindo-se ao assunto deste texto: “Isto não tem nada a ver com Portugal e com os portugueses”
Como não tem nada a ver com Portugal e com os portugueses?
Sim, temos o mar que nos separa, mas o mar é, aqui e agora (sobretudo agora, em que “uma borboleta bate as asas em Tóquio e há uma tempestade em Nova Iorque”), irrelevante.
Tem, tem muito a ver com Portugal e com os portugueses. Aliás, com Portugal e com os portugueses mais do que com qualquer outro país.
No mínimo, pelas reminiscências históricas, pela língua comum (o que tem acrescidas implicações políticas, subjectivas e objectivas), pelos maiores laços familiares (actuais e passados) que unem portugueses e brasileiros, pela maior afinidade cultural, pela maior emigração brasileira em Portugal, etc.
Por isso, como portugueses, pelo que o Brasil nos inspira de admiração pela sua cultura e pela sua História de povo irmão, esperamos que os brasileiros, pelo povo que são e até pelo que se está a passar no mundo (e muito especialmente na América do Sul, para já não dizer na do Norte…), se mantenham onde merecem e onde é tanto preciso que permaneçam: na Democracia.
Concluindo, o país de Carlos Drummond de Andrade é, sim, um país “velho”, mas “velho” positivamente. “Velho” de cultura e de vivência social diversificada, genuína, inimitável e intensa.
Mas é justamente também essa “velhice” que lhe pode possibilitar “supor-se novo” e, assim, de novo, trazer a alegria (e não o medo) brasileira comum para a rua.
Senão, como vai ser o próximo Carnaval?
E, nesse sentido, sendo mais concreto, rejeitar claramente as propostas de ditadura do candidato Bolsonaro e, como “país novo”, sem prejuízo do muito trabalho democrático a fazer para rectificar erros políticos (com humildade sem humilhações, com firmeza sem arrogâncias, com lealdade sem recalcamentos, muito menos vinganças), renovar a democracia.
Enfim, neste sentido, fazer jus ao tal aforismo de Carlos Drummond de Andrade na sua versão integral: “O Brasil é um país novo que se imagina velho, e um país velho que se supõe novo.”
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[1] Carlos Drummond de Andrade (Brasil, 31/10/1902 – 17/8/1987), em ”O Avesso das Coisas” (1987);
[2] Sintetizando, Outono português de 1822 (a data comemorada como a da independência do Brasil é a de 7 de Setembro), quando o infante D. Pedro, filho do rei D. João VI de Portugal, fez, nas margens do rio Ipiranga (hoje, cidade de S. Paulo), a célebre proclamação.: “Independência ou morte!”;
[3] António Carlos Jobim (Rio de Janeiro, 25/1/1927 – Nova Iorque, 8/12/1994), compositor, pianista, maestro e cantor brasileiro, autor das canções mais emblemáticas do Brasil, por exemplo, de “Garota de Ipanema”;
[4] Como foi o caso, mais recente, da ditadura militar que preponderou entre 1964 e 1984.
[5] Bíblia – Génesis, 11 – 6 e 7.
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