Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
O Problema da Democracia é a Falta Dela

Há alguns anos o grande perigo para a democracia eram os golpes de estado e as ditaduras militares. Na segunda metade do seculo XX, praticamente, todos os países da América Latina e de África sofreram vários golpes de estado, mas isso era visto como coisa do terceiro mundo e nos países avançados a democracia parecia indestrutível. O que vemos hoje é um onda crescente em que os eleitores tendem a escolher líderes que se assumem como anti-democratas. Na Hungria e da Polónia os governos eleitos já assumem que o respeito pelas regras da democracia e a separação dos poderes não fazem parte das suas preocupações. Entretanto, na Itália e na Áustria os governos já têm partidos que se assumem como anti-democráticos e na Europa a cada eleição a extrema direita recebe mais votos. Enquanto isso acontece por cá, os norte americanos elegeram um presidente que não respeita ninguém e o Brasil prepara-se para eleger um presidente, cujo único programa parece ser o desrespeito pelas regras da democracia.
A estes podemos juntar o presidente das Filipinas que se gaba de executar “criminosos” pelas próprias mãos e o da Venezuela que persegue os adversários e na prática criou um regime que se não é uma ditadura já não é uma democracia e levou o país à ruína.
Em vez de pensarmos que os eleitores escolhem estes líderes por serem ignorantes, será melhor pensar um pouco no que estará errado com a democracia.
Apesar da espécie humana existir há dezenas de milhares de anos, as condições de vida que possibilitaram a democracia são muito recentes, pelo que a nossa experiência com esta forma de governo é pouca e talvez ela não esteja ainda capaz de lidar de forma eficiente com situações de crise.
É facto que a democracia, como o governo eleito por todos os cidadãos, só foi posta em prática depois da II Guerra Mundial. Antes disso as democracias foram sempre muito limitadas, e apenas alguns grupos sociais participavam livremente no processo eleitoral.
Faz parte da nossa natureza falar mal dos outros e sobretudo dos que têm poder, pelo que tanto nas democracias como nas ditaduras há tendência para o povo e sobretudo as elites falarem mal do governo.Nas democracias as vozes contra o governo têm sempre um eco muito alto, pois há liberdade de expressão, enquanto nas ditaduras quem é contra têm de falar baixo. Certamente, que há menos vozes a falar mal do governo na Venezuela do que em Portugal.
A comunicação social tornou-se omnipresente e a política tende a confundir-se com essa realidade. Todos conhecemos jornais e televisões que ganharam audiências com campanhas contra os governos ou algum político em particular e não é preciso ser especialista para perceber que se um jornal ou uma televisão se assumir como defensor do governo perde audiências.
Todas as pessoas têm dificuldades nas suas vidas e deixou-se criar a ideia que elas se devem aos governos e à democracia em particular e que a solução passa por votarmos em líderes fortes e sem medo que sejam capazes de enfrentar os nossos inimigos e os nossos fantasmas.
A democracia está com dificuldades em dar às pessoas os sentimentos de segurança no presente e de esperança no futuro de que todos necessitamos, mas a experiência mostra que as ditaduras não são melhores a fazer isso.
Admitindo que Salazar teve algum sucesso na criação do sentimento de segurança, não parece que tenha sido capaz de criar uma réstia de esperança na nossa sociedade.
O que a democracia precisa é de mais democracia, a começar pelo funcionamento interno dos partidos políticos onde a democracia é muito deficitária, o que faz com que os cidadãos não se identifiquem com essas organizações, mas também o Parlamento precisa de ser mais transparente e mais eficiente.
Precisamos, urgentemente, de encontrar formas de aprofundar a democracia de tal modo que todos nós possamos sentir confiança nos líderes que escolhemos e possamos acreditar que eles são as pessoas certas para nos conduzirem a um futuro com esperança.
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