Manuel Silva

A felicidade é um estado de alma individual

Quantas vezes já ouviu o leitor após proferir uma frase, ter uma conversa sobre questões importantes para o presente e o futuro da humanidade, a arte ou a ciência, a pergunta “o que é que isso contribui para a nossa felicidade?”.

Normalmente essa pergunta vem de pessoas pouco ou nada sensíveis à cultura, às questões do espírito e a uma boa ou má, justa ou injusta organização social. As razões para aquela pergunta residem na inveja de quem sabe mais que elas, numa baixa formação cultural e intelectual e no egoísmo reinante no mundo, fruto do neo-liberalismo, ainda que desconheçam o significado desta última expressão.

Muitas dessas pessoas demonstram os seus conhecimentos numa tasca, discutindo futebol entre um arroto e vários copos de vinho ou minis.

A felicidade é um estado de alma individual. O que faz feliz uma pessoa pode fazer outra infeliz. Ninguém é plenamente feliz, pois a vida traz contrariedades de todo o tipo.

Felicidade colectiva prometeram todos os regimes comunistas. Na prática, as sociedades pelos mesmos governadas foram o pior dos infernos, à semelhança das dirigidas pelo fascismo ou o nazismo.

Os sistemas comunistas são responsáveis pela morte de 100 milhões de seres humanos em pelotões de fuzilamento, campos de concentração ou à fome. A felicidade das pessoas submetidas ao totalitarismo de esquerda era tal, que o fizeram implodir. Os fascistas e os nazis, que também mataram milhões de pessoas, não falavam de felicidade colectiva. Pelo contrário, os falangistas espanhóis de Primo de Rivera e, mais tarde, os franquistas, seus continuadores, durante a guerra civil espanhola de 1936-39 gritavam “viva la muerte!”.

A canção brasileira titulada “João e Maria”, mais conhecida na versão de Chico Buarque, que começa assim: “agora eu era um herói/e o meu cavalo só falava inglês/e a noiva do cowboy era você além das outras três”, a determinada altura inclui os seguintes versos: “agora eu era um rei, era um bedel e era também juiz/e com a minha lei, todo o mundo era obrigado a ser feliz”.

Chico Buarque é um excelente cantor que desempenhou um papel importante na luta contra a ditadura militar fascista, corrupta e cleptocrática, que poderá estar de volta com o fascista Bolsonaro, mas as suas convicções são marxistas-leninistas. “Todo o mundo era obrigado a ser feliz” significa um conceito político totalitário de felicidade. Todas as cidadãs e todos os cidadãos seriam obrigados a sentirem-se ou mostrarem-se felizes, mesmo quando viviam infelizes, qual bando de carneiros a seguir o pastor-guia do rebanho.

Somos felizes ou não – individualmente – quando a vida profissional, familiar, o estado de saúde correm bem e, sobretudo, quando lutamos por uma sociedade melhor, colaborando para a felicidade de outros.

Quanto aos que perguntam “o que é que isso contribui para a nossa felicidade?”, que continuem a viver no seu mundo fechado e deixem os outros ser livres pensadores e felizes segundo o seu conceito pessoal. Aliás, sê-lo-ão, quer eles queiram ou não, como dizia a oposição ao regime salazarista.

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