Erradicar os eucaliptos que invadiram o território é emergência

Um ano depois do grande incêndio de outubro de 2017, o concelho de Vouzela recupera o património perdido

O programa evocativo “Vouzela – Um Ano Depois” teve início no dia 14 e terminou a 16 com a deslocação do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para participar numa ação de plantação e controlo de invasoras na mata da Srª do Castelo.

Este programa contou com vários momentos de evocação às vítimas dos incêndios de Outubro do ano passado e a entrega de casas recuperadas.

Relembrar nos fogos de Outubro do ano passado se registaram-se 8 vítimas mortais no concelho de Vouzela

Segundo declarações do presidente da Câmara de Vouzela, Rui Ladeira, “80% a 90% do concelho foi arrasado” pelas chamas, que também deixaram “pelo menos 20 famílias desalojadas” e destruíram “centenas de postos de trabalho”.

Um ano depois muito trabalho de recuperação está feito mas muito há ainda para fazer, nomeadamente ao nível do ordenamento e da gestão florestal e da reflorestação das áreas ardidas.

Um dos pontos marcantes das cerimónias promovidas pelo município foi a visita do  Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa que esteve com familiares das vítimas e participou numa ação de arranque de eucaliptos e plantação de autóctones.

Na vista participou o Ministro do Planeamento e Infraestruturas, Pedro Marques um vouzelense a exercer funções governativas.

Durante uma ação de limpeza de infestantes e de plantação de espécies autóctones na Mata da Nossa Senhora do Castelo, em Vouzela, Marcelo Rebelo de Sousa mostrou-se preocupado com a quantidade de eucaliptos.

“Estamos nesta ação de hoje precisamente porque estamos preocupados. A natureza fez irromper outra vez eucaliptos por toda a parte, quer aqui, quer na área atingida em junho”, afirmou aos jornalistas.

Por isso, disse esperar que haja “uma movimentação das comunidades”, em colaboração com as autarquias, com o Estado e com as várias instituições “para corrigir essa tendência”, até porque, “a partir de certa altura, ela é irreversível”.

Apesar de estarem de fato, Marcelo Rebelo de Sousa, o ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques, e o presidente da Câmara de Vouzela, Rui Ladeira, calçaram as luvas e começaram a arrancar eucaliptos.

Rui Ladeira, que é engenheiro florestal, considerou que ações como a de hoje de manhã são fundamentais.”Estarmos aqui a arrancar os eucaliptos e, por sua vez, substituir e colocar espécies autóctones, como carvalho, sobreiro e castanheiro, é um sinal daquele que deve ser o caminho que devemos calcorrear para o futuro”, defendeu.

Isto porque, segundo o autarca, caso contrário haverá “eucaliptos à solta, aumenta o risco de incêndio e, dentro de seis a dez anos”, acontecerá “uma calamidade igual ou superior” à de outubro de 2017.

Na sua opinião, este trabalho tem que ser feito até ao final do inverno, “porque a partir desse momento vai ser muito difícil conseguir domar tudo aquilo que é a força dos milhares e milhões de eucaliptos” que surgiram nas regiões afetadas pelas chamas.

“Isto é, na prática, estar a fazer reordenamento florestal. É substituir uma realidade que irrompe por si, ordenando-a, corrigindo-a, fazendo-a regressar àquilo que era a florestação autóctone”, concluiu Marcelo Rebelo de Sousa.

Rui Ladeira disse também ser fundamental ter pastoreio à volta das aldeias, com produção de leite, de queijo e de carne, porque essa fileira “diminui o risco de incêndio, mantém o original e também a sabedoria das comunidades”.

“Se não for viável economicamente, temos que encontrar forma de compensar estas comunidades, porque prestam serviço público determinante para o nosso futuro”, acrescentou.

Também a Coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, acompanhada pelos deputado Carlos Matias da Comissão Parlamentar de Agricultura Carlo e Pedro Soares, Presidente da Comissão Parlamentar do Ambiente visitaram o concelho de Vouzela.

A visita teve por objetivo verificar a reconstrução do concelho após um ano dos trágicos incêndios. Durante a visita encontraram-se com uma equipa de Sapadores Florestais da ADRL e com eles participaram numa ação de arranque de eucaliptos.

Em declarações à comunicação social, Catarina Martins disse que “Não podemos exigir às pessoas que aqui vivem, depois de tudo o que passaram, que vão elas sozinhas tratar da paisagem, arrancar os eucaliptos, tornar o país mais seguro. Não pode ser. É preciso apoio efetivo à floresta”, defendeu Catarina Martins no final da visita à Reserva Botânica em Cambarinho, acompanhada pelo presidente da Câmara de Vouzela.

Um ano após os incêndios, “há pessoas que ainda aguardam a reconstrução daquilo que perderam, e isso é urgente”, prosseguiu Catarina, elencando outras duas prioridades: o apoio à agricultura informal e familiar, porque “quando as terras ficam abandonadas, o risco de incêndio aumenta”; e o apoio à produção florestal e ao escoamento da madeira.

Revitalizar o interior do país é uma tarefa difícil e que contraria o que têm sido as políticas de muitos anos, argumentou a coordenadora bloquista. “O interior precisa de gente. Estamos num ciclo vicioso de degradação dos territórios e abandono das populações e não podemos assistir passivamente, precisamos de políticas ativas”, defendeu Catarina.

Esta data foi importante para recordar as vítimas, fazer o balanço da recuperação do património ardido mas também, e essa foi uma tónica muito forte sobretudo nas visitas do Presidente da República e da Coordenadora do Bloco de Esquerda, a urgência de olhar para a floresta, nomeadamente a urgência de erradicar a praga de eucaliptos que nasceu a seguir aos fogos. Parecem autênticas borralheiras e nascem por todos os lado, mesmo em áreas que antes eram de carvalhos, pois o vento se encarregou de espalhar as sementes.

O presidente da Câmara de Vouzela Rui Ladeira tem sido incansável na defesa da floresta do seu concelho e na recuperação das casas e outro património que ficou queimado no ano passado.

A dor e a memória do fogo essa não se apaga, está bem viva em todas as pessoas do concelho de Vouzela.

 


 

Parlamento recomenda programa para arrancar eucaliptos nascidos após incêndios de 2017

O parlamento aprovou um projeto de resolução do BE que recomenda ao Governo a criação de um programa urgente, “desburocratizado e de rápida implementação” para apoiar o arranque dos eucaliptos que nasceram depois dos incêndios de 2017.

Esta recomendação proposta pelos bloquistas teve a abstenção de PSD e CDS-PP – que anunciaram a apresentação de uma declaração de voto e os votos a favor das restantes bancadas.

No texto, pede-se ao Governo que “crie, com caráter de urgência, um programa desburocratizado e de rápida implementação, de apoio ao arranque dos eucaliptos que nasceram depois dos incêndios de 2017”.

O parlamento recomenda ainda o desenvolvimento de “um programa para controlar o enorme avanço da invasão de acácias, para erradicar as que estão a nascer descontroladamente e que promova a investigação necessária sobre as técnicas a aplicar”.

“Neste âmbito, atribuir apoios à substituição do eucalipto por espécies autóctones de maior resistência ao fogo”, é ainda proposto.

Segundo o BE, “os trágicos incêndios de 2017, além das vidas ceifadas e da destruição de bens e estruturas que o país”, deixaram “para futuro consequências negativas no património natural e meio ambiente”.

“Uma dessas consequências, agora bem visíveis, é o ressurgimento de milhares e milhares de eucaliptos que regeneram naturalmente após os incêndios e os que nascem sobre a terra queimada e terrenos circundantes, como se fossem mega alfobres. Autarcas, associações locais e ambientalistas das regiões afetadas alertam que as sementes de eucalipto, aos milhares, já entraram em pinhais e outro tipo de povoamentos, muitos deles queimados, total ou parcialmente, nos incêndios de 2017”, avisa.

Esta “invasão”, é referido no projeto, “fará com que as novas plantas de eucalipto cresçam desordenadamente”, aumentando “exponencialmente a dificuldade de gerir os terrenos afetados” e “drasticamente a vulnerabilidade dos territórios a novas catástrofes, devido à incontrolada massa vegetal pronta para arder”.

O deputado Carlos Matias disse à Gazeta da Beira que “numa floresta predominantemente de minifundio, o ordenamento florestal não pode ficar apenas sujeito à iniciativa dos pequenos proprietários. É essencial uma medida do governo que promova o controle da expansão do eucalipto por regeneração natural que está a acontecer de forma completamente desordenada e invasiva. A proposta do Bloco aprovada no Parlamento vai nesse sentido, mas deve ser posta em prática com toda a urgência, sob pena de a situação se tornar descontrolada e a exigir meios muito mais caros.”

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