Lidairada na Comenda

Realizou-se no passado Domingo dia 30 de Setembro na Quinta da Comenda (S. Pedro do Sul) um evento singular que foi baptizado de “Lidairada”. Esta palavra “criada” por Aquilino Ribeiro(*) quer dizer “grande lida, azáfama, lufa-lufa”. A “Lidairada” consistiu num programa de actividades muito diversificadas que decorreram em vários espaços da Quinta da Comenda e que se prolongou ao longo de todo o dia.
Às 10h iniciou-se um percurso pedestre desde a entrada da quinta até ao açude da Comenda no rio Trouce. Este percurso foi conduzido pelo biologo/botânico Paulo Pereira e pelo responsável pela quinta Angelo Rocha que foram apresentando às várias dezenas de participantes aspectos interessantes da flora e da actividade agrícola em modo de produção biológico. Paulo Pereira, numa perspectiva de etnobotânica, foi reveland,o ao longo do percurso de cerca de 2 km, as propriedades alimentares (e não só) das diversas espécies vegetais espontâneas encontradas. Angelo Rocha foi abordando as questões da prática da agricultura biológica (a Quinta da Comenda está há 30 anos em agricultura biológica) e apresentando a policultura implementada na quinta (vinha, hortícolas, agriões de água, frutas, frutos secos, espargos verdes, etc). A actividade agrícola principal é a cultura da vinha que tinha acabado de ser vindimada. A quinta produz o próprio vinho na sua adega, com destaque para o vinho branco à base das castas características da região de Lafões: arinto, cerceal e Dona Branca. A actividade pecuária, muito importante em agricultura biológica, é constituida por um grupo de vacas de raça arouquesa em pastoreio livre e por um bando de gansos que percorrem livremente as várias parcelas da quinta. Quer as vacas, quer os gansos foram observados atentamente pelos visitantes. O percurso terminou num local emblemático, a ponte “romana” da Comenda sobre o rio Trouce.
Paula Chainho animou uma actividade de descoberta e identificação dos organismos invertebrados existentes no rio
Chegados ao rio, a biologa marinha Paula Chainho animou uma actividade de descoberta e identificação dos organismos invertebrados existentes no rio com o objectivo de classificar a qualidade da sua água. Com a ajuda de 2 microscópios, os participantes puderam aprender sobre os vários organismos recolhidos e concluir que o estado do rio Trouce neste local é muito bom. Foi apreciada a beleza da galeria vegetal muito bem preservada existente ao longo das margens do rio.
Seguiu-se um pic-nic à base de produtos da quinta elaborado pelo Jorge Abílio (cozinheiro, Vouzela) com saladas, sopa, pão cozido no momento, patés de feijões diversos, legumes salteados e muitas outras iguarias que fizeram as delicias dos participantes. Tudo sempre acompanhado pelos vinhos da Quinta da Comenda de 2017, um branco e um rosé, que mereceram largos elogios.

Pelas 15h iniciou-se o programa da tarde com uma palestra do Prof. Manuel Real intitulada “O papel das elites cristãs da Terra de Lafões nos alvores da nacionalidade” realizada num salão da quinta. Ficamos impressionados com a intensa actividade humana que existiu durante 200 a 300 anos antes da fundação de Portugal neste território. Estórias fascinantes foram desvendadas pelo prof. Manuel Real que se tem dedicado ao estudo da baixa Idade Média nesta região, que constitui uma unidade territorial única, Lafões.
Todos participaram activamente nos trabalhos do linho cultivado na Comenda
De seguida, na eira da quinta, todos participaram activamente na ripa do linho cultivado na Comenda, bem como nas outras tarefas da preparação do linho (espadelar, maçar, sedar, e fiar) sob a orientação de várias pessoas da associação de Rompecilha (S. Pedro do Sul). Ao lado começava também a desfolhada das 2 variedades de milho tradicional cultivadas este ano na quinta (milho branco e milho amarelo). E, claro, sempre que aparecia uma espiga de milho-rei, era uma festa com beijos e abraços a todos os participantes. Todas estas actividades na eira tiveram um acompanhamento musical muito especial: as mulheres do grupo “Cantares Polifónicos de Candal” entoaram cantigas lindíssimas alusivas aos trabalhos do linho e do milho. Trata-se dum reportório variado e rico em sonoridades polifónicas telúricas e ancestrais.
A parte final do programa decorreu no átrio da capela da quinta com a apresentação pelo Cénico – Grupo de Teatro Popular (S. Pedro do Sul) da rábula de Jaime Gralheiro “O Levantamento Popular de Arcozelo”. Trata-se duma peça baseada em factos históricos ocorridos em 1635 na Quinta da Comenda e na aldeia vizinha de Arcozelo, envolvendo uma recusa de pagamento de impostos. Foi interessantissimo o facto da acção decorrer no próprio local da representação teatral, o adro da capela da Comenda. A actuação dos vários actores foi viva e divertida sendo intensamente aplaudida.
As mulheres do grupo “Cantares Polifónicos de Candal” entoaram cantigas lindíssimas alusivas aos trabalhos do linho e do milho
O programa terminou com a apresentação dum concerto pelo grupo “Vozes d’Aldeia” de Oliveira de Frades: canções de raiz popular com arranjo instrumental cuidado em que sobressairam as flautas que deliciaram a assistência. O espaço transformou-se num excelente auditório ao ar livre com a plateia ladeada por árvores frondosas e pela casa da Quinta da Comenda
Desfolhada das duas variedades de milho tradicional cultivadas este ano na quinta
Tratou-se pois dum evento com actividades relacionadas com o ambiente e agricultura biológica, com a gastronomia e com a cultura (História, Música, Teatro) num enquadramento belíssimo que é a quinta da Comenda. e envolvendo todos os participantes; ou seja uma “Lidairada”!
Apresentação pelo Cénico – Grupo de Teatro Popular (S. Pedro do Sul) da rábula de Jaime Gralheiro “O Levantamento Popular de Arcozelo”
O objectivo de dar a conhecer a Quinta da Comenda duma forma activa, convivial, lúdica foi plenamente alcançado.
(*) Lidairada é um provincianismo beirão que Aquilino Ribeiro foi usando, também como verbo (‘lidairar’), em romances como «A via sinuosa», «Andam faunos pelos bosques», «O homem que matou o diabo», etc…, significando sempre ‘grande lida’, ‘canseira’, ‘lufa-lufa’, ‘azáfama’, ‘agitação’.
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