Nazaré Oliveira

FIGURAS TÍPICAS (parte V) - O REIS

De seu nome completo António Alberto da Silva Reis, o último nome era bastante para que não se pensasse noutra pessoa. Menino ainda, veio de Aveiro com os pais, que em São Pedro do Sul se fixaram, no exercício da sua actividade panificadora. Mais novo do que eu dois anos, era conhecido entre a miudagem pelo Toninho Padeiro. Cresceu, a alcunha morreu e passou a ser O Reis.

Cedo travámos amizade que iria fortalecer-se como companheiros de internato, no Colégio da Via Sacra, nos anos 40. No Colégio, o Reis era estimado por todos. Simpático, comunicativo, alegre, folgazão, temperamento extrovertido, sempre pronto para tudo menos para uma coisa: estudar. Isso não era com ele. Eu, um pouco mais adiantado, bem procurava estimulá-lo para o estudo. É o estudas! E não era burro! Lá ia aprendendo alguma coisa de ouvido, nas aulas, mas era alérgico aos livros. Eu bem lhe dizia que a sabedoria não entra por osmose. Outros interesses o apanhavam. Numa coisa ele era catedrático: em futebol. Sabia tudo. Portista até à medula, comprava e lia todos os jornais desportivos da época: o Stadium, o Norte Desportivo, A Bola… No Colégio, ninguém mais comprava jornais. O Reis punha os seus à disposição de toda a comunidade. Como praticante, nas partidas que disputávamos no recreio, a sua semelhança com o então avançado-centro do Futebol Clube do Porto mereceu-lhe a alcunha de Correia Dias, gordinho como ele. No fim do jogo, lá vinha o Reis a destilar suor e generosidade. A meio da semana arranjava sempre um pretexto para sair do Colégio e ir ver o treino do Académico, onde tinha amizades com alguns jogadores e com o treinador Tellechea que deixou nome na cidade.

A mãe, Senhora Amelinha, com medo que ele passasse fome e emagrecesse, mandava, duas vezes por semana, pelo cauteleiro Salgado, duas sacas de vitualhas para o seu Antoninho. A bem dizer, para dois Antoninhos, porque ele dividia sempre comigo. No quarto das malas, fazíamos bem regadas patuscadas! Ao escrever estas linhas, ainda sinto crescer água na boca, ao lembrar a deliciosa bola com chouriça. Reflexos condicionados, como os cães de Pavlov!

Nas férias, continuava o nosso convívio com outros companheiros. Com o Zé Dias e o Manel Borges, eram as nossas jogatanas de póquer e de sueca, por cima do galinheiro da Senhora Amelinha. Quando em casa do Reis se matava o porco, sempre convidava os três melhores amigos para a sarrabulhada. Houve um ano que nunca poderei esquecer. O Reis, eu, o Zé Dias e o Manel Borges lá nos sentámos à mesa como os Quatro Mosqueteiros a esgrimir os garfos e as facas  para atacarmos as febras; começámos a virar copos e eu, armado em D’Artagnan de pacotilha, não quis ficar atrás. Apanhei a única bebedeira da minha vida! A trocar o passo — felizmente já era noite — lá cheguei a casa com lucidez suficiente para meter a chave na fechadura e enfiar-me na cama. Minha mãe apercebeu-se. (De que é que as mães não se apercebem?) Calou-se e meu pai nem sonhou! Dois dias depois, regressámos ao Colégio e à água.

Entretanto terminei o curso liceal e deixei o Colégio. O Reis ainda ficou. Mas, pouco tempo depois, largou os livros, com os quais aliás nunca tivera grandes relações, e voltou para casa, resolvido a enveredar por outros caminhos.

Um dia, quando eu já era professor do Colégio São Tomás de Aquino, o Reis, já com mais de 20 anos, aparece-me numa aula: “Venho ser teu aluno, a ver se me ajudas a esgalhar o 5º ano!” Nas aulas, a sua veterania impunha-se aos colegas. No fim do ano, foi fazer o exame ao Liceu de Aveiro. Do Liceu de Viseu já estava escaldado e os professores tinham fama de feras. Dizia-se que os de Aveiro eram mais benevolentes e era a terra dos pais, que tinham lá as suas relações. E lá ficou aprovado na Secção de Letras. No ano seguinte, voltou para o Colégio, para se atirar à Secção de Ciências. Mas aí a coisa fiava mais fino. Voltou de novo a Aveiro, mas as coisas não correram bem. Ainda me deu o gosto de tirar uma boa nota na minha disciplina — a Geografia. O pior foi o raio da Matemática e o estupor da Física. Foi mais um chumbo.

Alguns dias depois, estávamos no Edgard quando chegou o Zé Dias: “Então, pá, como correu o exame?” E o Reis: “Foi mais um chumbo”. O Zé Dias procurou animá-lo. O Reis cortou-lhe o palavreado e, descontraído, olimpicamente respondeu: “Haja saúde e coza o forno”. Nunca uma afirmação foi mais apropriada, porque os pais eram os donos da Padaria Estrela que fornecia toda a região. A expressão ficou e ainda hoje se diz, para justificar qualquer fracasso: Haja saúde e coza o forno.

Em matéria de estudos, o Reis por ali se ficou. Leal, franco e generoso, era um homem de muitas amizades. Dele podia dizer-se “em cada esquina um amigo”. A sua facilidade de relacionamento abriu caminho a outras actividades: representante da Maior para a venda de pneumáticos de automóveis, agente da Seguradora Metrópole, alcançou uma boa carteira de seguros. E teve na vida prática o êxito que lhe fugiu nos estudos!

Na altura própria, casámos. E não fomos ao casamento um do outro, porque casámos no mesmo dia — ele em Aveiro e eu na igreja de Bordonhos.

O Reis mudou e ganhou um novo estatuto social. A responsabilidade do seu novo estado, o facto de passar a ser pai e o próprio amadurecimento trazido pela idade transformaram o jovem folgazão e bon-vivant no homem e cidadão responsável, interveniente na vida da terra que adoptou como sua: foi vereador da Câmara Municipal no consulado do saudoso Professor Hildebrando, dirigente da União Desportiva Sampedrense (era o velho vício do futebol) e de outras instituições.

A minha saída de São Pedro do Sul tornou mais raros os nossos encontros. Mas não menor a nossa amizade. Frequentemente ele vinha a Viseu tratar dos seus negócios e encontrávamo-nos. Nos últimos tempos, quando o peso dos anos começava a dar sinais, os nossos encontros eram nas tardes de sábado: enquanto ele esperava pela esposa, que estava no cabeleireiro, nós, sentados nos bancos do Rossio, debaixo das tílias da nossa juventude, passávamos em revisão o passado, de mistura com comentários sobre a vida sampedrense e as politiquices da vida nacional.

Na última vez que ali estivemos já não era o mesmo Reis: filado pela doença, era um homem amargurado; nas suas palavras, pressentia-se a tristeza que lhe ia na alma. E uma grande tristeza me invadiu também. Senti que aquele poderia ser o nosso último encontro e o abraço que demos à despedida talvez fosse o último. E foi. Algum tempo depois, recebi um telefonema: “morreu o Reis!”

Uma infinita tristeza invadiu o meu coração. Mas apeteceu-me gritar, como nos tempos da monarquia: “MORREU O REIS! VIVA O REIS!”

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