Francisco Queirós
Os táxis e a essência reaccionária do regime
A classe política portuguesa tornou-se há muito a guardiã de realidades que vêm de trás, desde o corporativismo salazarista ao PREC gonçalvista. É essa quase que a sua única razão de ser.
Quanto aos taxistas, que dizer? Talvez que é mais fácil compreendê-los do que simpatizar com eles. Os táxis beneficiaram, durante anos, de um sistema público de contingentação que não só fez dos Alvarás um Grande Negócio (melhor:Chorudas Negociatas!) mas permitiu aos condutores cultivar impunemente as mais variadas excentricidades corporativas, seguros de que aos clientes, sem alternativa, não restava outro remédio senão sofrer estoicamente a sua má criação, opiniões, e preferências radiofónicas. De repente, tudo foi posto em causa pelas plataformas electrónicas de transporte, que permitiram a milhares de particulares prestar o mesmo serviço a preços frequentemente mais baixos e com muito mais cortesia e transparência.
Até aqui, imagino que já toda a gente tenha aprendido a lição. Mas há outra história por contar. É que, em princípio, os políticos deviam estar com os taxistas. Reparem: esta é uma massa relativamente importante de empresários e de trabalhadores que beneficiam de um monopólio público e das respectivas rendas, e que a qualquer governo poderia interessar ter como clientes satisfeitos. Os taxistas não são funcionários públicos, mas é como se fossem. Mais: estão concentrados nas cidades, cujo trânsito podem bloquear ou perturbar. São o tipo de classe profissional capaz de proporcionar à elite política todas as razões para cedências. Seria fácil, aliás, tratar as plataformas electrónicas como exemplos de “capitalismo selvagem”. O esquerdismo primário que hoje em dia passa por ciência nas universidades dispõe, para o efeito, da necessária doutrina sobre o que chamam (diga-se com alguma piada!) ”Ubernização da Economia.
Era o que se poderia esperar: a classe política portuguesa tornou-se há muito a guardiã das “realidades que vêm de trás”, para usar uma expressão do presidente da república, desde o que ficou do corporativismo salazarista até ao que sobreviveu do PREC gonçalvista. É essa quase que a sua única razão de ser: defender, contra todas as mudanças, velhos estatutos, velhas situações, velhos privilégios, velhas maneiras de fazer as coisas, e as rendas que lhes estão associadas. Sendo assim fica por explicar os porquês dos políticos recusam aos taxistas a mão que estenderam a outras corporações
Há dias o PR ajudou a levantar um pouco do véu sobre o dilema quando disse publicamente “O que eu espero é que se atinja um equilíbrio justo na concorrência ante uma realidade que vem de trás e é socialmente muito importante e uma realidade que arrancou há menos tempo e que está a alargar-se na sociedade portuguesa.” A segunda parte da frase diz tudo: esta é talvez uma das poucas situações em que a nova economia criou rapidamente uma massa de interessados que, apesar de inorgânica, nem por isso deixaria de reagir, mais não sendo com mau humor. A adesão às plataformas electrónicas foi quase instantânea e maciça. Já é difícil imaginar a vida urbana sem a facilidade de chamar um carro pelo telemóvel, e sem surpresas sobre o percurso, o preço e os humores do condutor. Significativamente, pouca gente pareceu nos últimos dias queixar-se da falta de táxis.
Imaginem que as plataformas digitais de transporte ainda não tinham aparecido. Estaria agora alguém a dizer-nos que, caso fossem autorizadas, só os ricos passariam a poder usar transporte individual. Tal como, muito provavelmente, se o retalho alimentar fosse, como outros serviços ainda são, um monopólio estatal, teríamos imensa gente a explicar-nos que sem supermercados do Estado não haveria comida no país. O reacionarismo do regime depende de não podermos experimentar outras coisas. Neste caso, experimentámos. Já é demasiado tarde para voltar atrás.
Em vez de simplesmente tentar eliminar a concorrência por vias legislativas, talvez fosse mais proveitoso aos taxistas modernizarem-se, desburocratizarem-se e mostrarem que são ainda a melhor solução para os cidadãos. É complicado, dá muito trabalho, obriga à excelência? Pois, esse é o problema maior cá deste cantinho à beira mar plantado!
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