EDITORIAL 746

O crescimento de sentimentos racistas e xenófobos dá sinais que preocupam

Na sequência da manifestação que se realizou em Lisboa, no passado sábado, em defesa do direito à habitação que, sendo um direito constitucional, deveria ser um dos pilares do Estado Social, a par da Saúde, da Educação e do Ensino, publiquei um comentário e várias fotografias na minha página do facebook. Fiquei chocada com alguns dos comentários que se seguiram: «Trasanda a comunas isto aqui, já AG todas as manifs começam ordeiras e sem violência dp vem os resabiados com falta de cacete nos cornos e uns tirinhos tb não lhes fazia nada mal». E, mais adiante, a mesma pessoa escreveu: «Vão viver pá Moscovo ou para a Venezuela, vão lá e deixem se de política fascistas marxista».

Tive medo. Fizeram-me lembrar a atuação da pior direita reacionária dos tempos do PREC, em Lafões que ateava fogo na sede do Partido Comunista. Instalava um clima de terror que passava, inclusivamente, por incendiar a floresta, para depois acusarem os comunistas de incendiários. Quem viveu estes tempos em Lafões sabe bem o terror que se sentia.

Fui reler um texto publicado no esquera.net intitulado o «“Crescimento da extrema-direita é consequência do neoliberalismo”, diz Noam Chomsky».

«Associando a sua raiva aos imigrantes, como acontece em diversas partes da Europa, dos EUA e até no Brasil, a razão do crescimento da direita radical pode não estar tão associada ao ódio irracional contra populações vulneráveis, mas ao sentimento de abandono diante da aplicação de políticas neoliberais, como aconteceram nos últimos anos na Suécia.»

Essa é a opinião do linguista, cientista político e filósofo norte-americano Noam Chomsky, apoiado por um estudo de cinco economistas suecos que mostra a ligação entre o corte de despesas em políticas sociais e o crescimento do ódio. Chomsky esteve recentemente em Portugal, onde participo no Seminário Internacional Ameaças à Democracia e a Ordem Multipolar, pode ler-se ainda no referido texto.

«Contra esse movimento, as elites precisaram de desenhar um novo modelo social que combatesse as greves e as lutas dos trabalhadores. “Eles diziam: ‘são marginais que devem ser colocados nos seus lugares’ – ou seja, como espectadores, não participantes do processo político, enquanto a minoria de homens responsáveis comandam em nome de todo mundo”. Desde então, os lucros do mercado financeiro cresceram mais de 1000%, enquanto os salários reais declinaram.»

“São marginais, devem ser colocados nos seus lugares”, só esta ideia justifica a presença numa manifestação pacífica, com uma forte presença de mulheres com crianças, algumas ao colo e pessoas em cadeiras de rodas, pelo Direito à Habitação, de polícias armados com shotguns no meio dos/as manifestantes em jeito de provocação. As pessoas mantiveram-se serenas, porque é gente pacífica. Foi a serenidade de quem luta contra as injustiças de uma política que mantém mais de 1500 fogos camarários devolutos, que permite a maior especulação imobiliária de sempre, rendas a preço “Vistos Golden” ao mesmo tempo que os despejos que tornam a vida das pessoas absolutamente precária e despovoam o centro da cidade, que manteve a manifestação pacífica.

Nunca tinha visto em Portugal tamanho aparato policial. Na Espanha, sim, já vi um corpo policial, herdeiro do franquismo, a actuar nas manifestações. Em Portugal, nunca tinha assistido!

Sinais preocupantes de um novo tempo, aqui bem caracterizado por Noam Chomsky.

https://www.esquerda.net/artigo/crescimento-da-extrema-direita-e-consequencia-do-neoliberalismo-diz-noam-chomsky/57096

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *