Nazaré Oliveira
FIGURAS TÍPICAS (II) - A Liberata

A LIBERATA era a empregada do Clube São Pedro nos anos 40. Viúva, vivia nas águas-furtadas com a filha Cândida, mulher já feita. Quem dessa altura não se lembra da sua figura? Seca de carnes como um bacalhau, assentava o tronco em duas pernas arqueadas, como se levasse o rabo entre parênteses curvos. Linguareira, amiga de meter o bedelho, com faro para tudo o que fosse mexerico, a sua condição de empregada do Clube proporcionava-lhe ocasião para que o seu ouvido de tísica, sempre à coca de novidades, apanhasse pedaços de conversas cujas lacunas preenchia por sua conta; alvissareira, espiolhava tudo e percorria a Vila ao encontro das comadres a quem, de permeio com manifestações beijoqueiras, ia transmitindo as novidades, em troca de outras que recebia e retransmitia, como gazeta ambulante com comentários e tudo.
Além de empregada do Clube, a Liberata tinha uma especialidade: vestir anjinhos para as procissões. Quando se aproximava a Páscoa e era a altura de pagar promessas, mãezinhas que tinham prometido um anjinho recorriam à sua arte. Ajudava-a a filha Cândida, que isto de vestir anjinhos tinha a sua ciência! E no dia da procissão, algumas horas antes, era ver passar as mamãs a caminho do Clube, levando consigo a matéria-prima com que se fazia um anjinho: o seu menino ou a sua menina. Do menino mais morcão ou da menina mais bisonha a Liberata fazia um anjinho: apoderava-se dos candidatos à corte celestial, mirava-os com o olho especializado, manipulava-os, frisava-os, pintava-os, empoava-os, lapidava-os, vestia-os, asava-os, enfeitava-os com cordões, estrelinhas e auréolas, ensinava-os a erguer as mãozinhas e a olhar par o céu. E das suas mãos saía um Santo António, um São João, uma Santa Teresinha ou um Cristo com a cruz às costas.
No domingo de Lázaro, a Procissão do Senhor dos Passos saía da Igreja do Convento, Rua Direita abaixo, parando para cantar o Miserere, nos passos armados em todas as capelas. Logo ao fundo das escadarias, a Capela de S. Sebastião; na Praça, a Capela de Santo António, a Igreja Matriz e a Capela das Paulas. E lá estava a Liberata na varanda do Clube, a ver passar a Procissão, de olho nos seus anjinhos.
Depois, a Procissão lá ia no longo caminho até à Ponte, de visita ao Passo armado pelo Viegas, na Capela de S. Bartolomeu. Era o mais espectacular de todos: em personagens de papelão em tamanho real, Pilatos a lavar as mãos, Judas a contar os 30 dinheiros, um feroz Herodes, Caifás e outros mal encarados judeus.
Cantando o Miserere, a procissão iniciava o longo regresso à Vila, para recolher à Igreja do Convento. Ultrapassada a curva da Caldeiroa, o Jardim dos Monizes, que aquela família franqueava e estava num plano superior à estrada, era o melhor lugar para se ver passar a procissão. A Banda marcava o compasso das irmandade e dos andores. E lá estava a Liberata, de camarote, a ver passar os seus anjinhos, que já acusavam os efeitos da longa caminhada, estafados, derreados, as asas mais ou menos tortas, a cruz às três pancadas, as mãos caídas, o olhar murcho, arrastando os pés a caminho do Convento, como se fossem a caminho do Calvário.
Acabada a procissão, os anjinhos voltavam a passar pelas mãos da Liberata. Faltava tirar o retrato e, para isso, era preciso reparar os estragos da caminhada, que não tinha sido, positivamente, um passeio pelo paraíso. E a Liberata retocava-os, restaurava-os, dava-lhes um segundo fôlego, e os anjinhos, recauchutados, lá iam para o Edgard, tirar a fotografia para a posteridade familiar.
Os anos foram passando. A vestir anjinhos, a Liberata foi envelhecendo, encarquilhando, os cabelos branqueando, a espinha foi dobrando e as pernas cada vez mais tortas. Até que um dia, cumprindo-se a lei suprema da vida, a Liberata partiu de vez para os anjinhos.
Que eles a tenham em bom lugar e a tratem bem. Não fazem mais do que a sua obrigação!
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