Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
O Estacionamento da Madona

Um dos grandes assuntos deste início de Verão é a cedência, pela Câmara de Lisboa de um terreno à cantora Madona para ela estacionar os seus carros.
Todos os políticos da oposição, comentadores e jornalistas se têm multiplicado em críticas ao Presidente da Câmara de Lisboa por ter cedido, o presidente diz que alugou, um terreno à cantora Madona junto à sua casa de Lisboa.
Não conheço a história e já ouvi inúmeros argumentos a favor e outros tanto contra, mas se o único valor em discussão fosse o interesse da Câmara, e não a utilização do espaço público, a cedência do estacionamento fazia todo o sentido, pois é evidente que a Câmara de Lisboa tem todo o interesse em que Madona viva na cidade, pois isso contribui mais para atrair turistas e outros investidores do que muitas campanhas de marketing.
Quem ouve e lê o que se vai dizendo e escrevendo sobre o estacionamento da Madona deverá pensar que é um caso único.
Apesar de viver na província tenho de ir a Lisboa com alguma frequência e o que mais vejo ao andar na rua são placas a dizer “lugares reservados”.
Assim, tomando como pretexto o caso da Madona fazia todo o sentido que se fizesse uma discussão sobre todas as cedências de lugares de estacionamento que existem em Lisboa e tentar perceber se todas elas são justificadas pelo interesse público ou se pelo contrário visam apenas garantir a comodidade de algumas pessoas.
Um dos casos mais exemplares que me aconteceu foi ter de ir ao ISCTE, na Cidade Universitária de Lisboa, e ser obrigado a ir estacionar longe, porque os estacionamentos na rua são reservados e os parques de estacionamento próximos apenas são acessíveis com um cartão que me pareceu ser exclusivo de professores e funcionários.
Do que tenho visto esta é a prática em todas as faculdades naquela zona e é muito comum em edifícios públicos haver parques reservados para os seus dirigentes, ou funcionários, mesmo que quem precisa de usar esses serviços não possa estacionar nas proximidades.
Olhando de longe não me parece que esta seja uma situação muito diferente da Madona.
Dir-me-ão que é importante que os professores universitários e os dirigentes de serviços públicos não percam demasiado tempo a estacionar os seus carros, apesar de existirem autocarros, metro e bicicletas que podem ajudar a reduzir esse incómodo.
Se perguntarmos aos ilustres professores universitários e aos dirigentes desses serviços públicos se acham bem ter um estacionamento privativo em espaços público, dirão que sim e por mim não lhes levo a mal, mas já me custa ver alguns que diariamente usufruem desses estacionamentos muito indignados com o estacionamento da Madona.
Nunca vi, mas se seguirem a prática habitual, também nas sedes das televisões, na pública e nas privadas, há lugares marcados para os senhores administradores.
Seria interessante ver os jornalistas e comentadores indignados com esta prática discriminatória, mas esta não lhes dá furos nem gera interesse no público. Ainda pior é se nunca lhes ocorreu pensarem nisso.
Eu próprio que vivo em Lafões já me vi em dificuldades em estacionar junto a serviços públicos, porque os lugares estão reservados não para a Madona mas para algumas “prima-dona” por isso posso imaginar que isso deve ser o pão nosso de cada dia dos cidadãos comuns.
Claro que os partidos que estão contra o Presidente da Camara de Lisboa e os comentadores e jornalistas afetos só pensam em usar a situação para criar um embaraço ao presidente da Câmara.
Há dias ouvi uma comentadora dizer que este caso é símbolo do nosso atraso, mas o modo como falamos dele também. Acrescentaria eu.
Infelizmente, este caso demonstra a tendência que temos em Portugal para discutirmos o mundo a partir de casos concretos e sem fazer uma análise do conjunto das coisas.
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