Luís Ribeiro*
ÉTICA E ÁGUA (IV)
(*)Professor associado c/ agregação do Instituto
Superior Técnico, UL / Vice-Presidente da Associação
Fragas-Aveloso

Os seres humanos são uma parte da natureza; não se encontram isolados ou dicotomizados da natureza. Simultaneamente, a natureza e os ecossistemas têm o direito de existir, evoluir e desenvolver-se por si próprios de forma constante e harmoniosa. Este eco-direito irá diminuir os desastres naturais, como o caso do desaparecimento do mar de Aral.
O Aral era um lago endorreico que se encontrava entre o norte do Cazaquistão e o sul do Uzbequistão, sendo um dos quatro maiores lagos do mundo, com uma área de 68.000 km2. Devido à implementação de projectos de irrigação que provocaram o desvio de rios que antes o alimentavam a sua área tem vindo a diminuir drasticamente desde os anos 60 do século XX. Em 2007, o seu tamanho natural tinha-se reduzido em 10%. Imagens de satélite tiradas pela NASA em Agosto de 2014 revelaram que, pela primeira vez na história moderna, a bacia oriental do Mar de Aral havia secado completamente. A bacia oriental é chamada agora o deserto de Aralkum. A pesca, que foi outrora uma actividade próspera da região, foi totalmente destruída, trazendo desemprego e recessão económica.
Para exemplificar como duas visões do mundo podem ser determinantes na aplicação efectiva dos princípios éticos mencionados acima, importa aqui referir a dicotomia entre uma cultura cosmogónica, base do pensamento das civilizações ameríndias, e a cultura de matriz judaico-cristã, personificada pelas civilizações do ocidente moderno no que concerne aos distintos significados que atribuem ao processo de desenvolvimento assim como à concepção da Natureza.
A cosmovisão é a maneira de sentir e viver a vida quotidiana que integra as percepções, simbologias, explicações, interpretações, concepções, conhecimentos, tecnologias, valores e crenças construídos sobre o mundo natural, social, mental e espiritual. Esta tem como base a percepção do Cosmos entendido como o mundo material e imaterial e englobante do universo. Diferencia-se da cosmologia do Ocidente que estuda o Cosmos, sendo de ordem racional, sistematizada, conceptual e categorial, enquanto a cosmovisão não o estuda mas entende-se com ele porque está associada ao sentir da vivência quotidiana.
Nesse sentido, a visão cosmogónica está mais próxima da visão holística da realidade do que a visão judaico-cristã como se mostra nos critérios seguintes (Garcia, 2015):
1) Percepção da Fonte da Vida
- i) Culturas baseadas na Cosmovisão – Mãe Terra = Natureza.
- ii) Culturas baseadas na Visão Judaico Cristã – Deus Todo-poderoso criador de tudo o que existe.
2) Percepção da Natureza
- i) Culturas baseadas na Cosmovisão – Origem e destino final do Homem. O Homem vive com a Natureza respeitando-a, protegendo-a tendo como base princípios de reciprocidade.
- ii) Culturas baseadas na Visão Judaico Cristã – A natureza é um recurso explorável e susceptível de apropriação desmedida, usada para gerar riqueza com técnicas que a depreda, deteriora e a extingue. O homem luta e domina a Natureza.
3) Percepção sobre a produção
- i) Culturas baseadas na Cosmovisão – O Homem usa racionalmente o que a Mãe Terra lhe oferece. O fim é a reprodução social e cultural sobre a base da reciprocidade
- ii) Culturas baseadas na Visão Judaico Cristã – Uso intensivo dos recursos. Sistema de exploração de recursos para gerar lucro que permite a reprodução social, cultural, económica e política sobre a base do exercício do poder e do lucro.
4) Percepção sobre as actividades produtivas
- i) Culturas baseadas na Cosmovisão – Festividades e rituais associados a trabalhos produtivos para o bem comum que congregam e unem, existindo laços de reciprocidade entre os serviços.
- ii) Culturas baseadas na Visão Judaico Cristã – Produto do castigo divino «Comerás o pão com o suor do teu rosto». Sistema contractual baseado no mercado do trabalho, da exploração do Homem, e meio de obtenção de lucro e mais-valias.
Referência:
GARCIA, M.J.J. La Racionalidade en la Cosmovisón Andina, UCH, 2015: pp. 246.
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