Manuel Silva

A herança do maio de 68

1968 foi o ano em que praticamente tudo aconteceu. Martin Luther King, lutador pelos direitos dos negros nos EUA, era assassinado pelos racistas antecessores de uma certa base social de apoio do actual presidente Donald Trump.

No Vietname, os americanos coleccionavam derrotas. Em Agosto, os tanques das tropas do Pacto de Varsóvia, com a URSS de Brejnev à cabeça, esmagavam a abertura do reformador comunista Dubcek. As esperanças e as liberdades que se viviam na então Checoslováquia eram esmagadas num só dia, numa comparação com o que o general fascista Augusto Pinochet faria 5 anos mais tarde no Chile. O comunismo mostrava não ser reformável, o que a História confirmou duas décadas depois com o fim da União Soviética e do chamado campo socialista, após a queda do muro de Berlim em 9 de Novembro de 1989.

Nos anos 60, existia também a contra-cultura e o movimento hippy. Este dividia-se em duas facções: a pacifista, do “make love, not war” e a de extrema-esquerda, liderada por Jerry Rubin e Abbie Hoffman, líderes do YIP (Young Internacional Party, Partido Internacional da Juventude).

Há 50 anos, no mês de Maio, rebenta a revolta estudantil em França, que se alarga às fábricas. Os dirigentes e participantes na revolução eram militantes de extrema-esquerda, especialmente anarquistas, trotskistas e maoistas.

Os objectivos daquela revolução eram políticos: destruição do sistema capitalista e instauração do poder popular, mas também de combate contra o conservadorismo social então vigente na França como, de resto, em quase toda a Europa democrática e nos EUA. Daí a luta pela igualdade entre mulheres e homens, a defesa de uma nova cultura. Numa palavra: a luta contra a sociedade oficial.

O movimento, que inicialmente era juvenil e estudantil e tinha contra si o PSF, o PCF, a esquerda tradicional francesa e internacional, mas também os maoistas que haviam cindido com os PCs tradicionais nos anos de 1963/64, defendendo Mao e Enver Hodxa contra o “revisionismo moderno de  Krutchov e Brejnev”, distinguindo-se no nosso país o CMLP (Comité Marxista-Leninista Português), inicialmente liderado por Francisco Martins Rodrigues (Campos), o qual, nesta altura, havia sido expulso por delatar na PIDE, sendo a organização liderada por Heduino Gomes, o “camarada Vilar”, futuro líder do PCP (m-l), hoje militante do PSD e defensor do legado de Salazar, na crítica feroz ao Maio de 68, alarga-se às fábricas parisienses e do resto da França, o que leva a um apoio envergonhado de socialistas e comunistas às lutas dos trabalhadores.

Nesta altura, surgem partidos e movimentos maoistas catacterizados por um grande espontaneismo, o chamado mao-spontex, em Portugal representado pelo MRPP, fundado dois anos mais tarde e elegendo para secretário-geral Arnaldo Matos, que, em 1968, era um dos principais, senão mesmo o principal responsável pelo apoio àquele movimento em Portugal

Um dos slogans do Maio de 68 era “sob o pavimento o mar”. Uma França aparentemente calma aborrecia-se e revoltava-se pelos motivos atrás mencionados.

O poder democrático francês esteve em perigo. Governo e sindicatos celebraram os acordos de Grenelle, dos quais resultaram aumentos salariais de 60% para os trabalhadores, que pouco depois seriam engolidos pela consequente inflação.

Os trabalhadores regressam às fábricas. No dia 30 de Maio, meio milhão de franceses sai à rua apoiar o então Presidente De Gaulle, herói anti-fascista e anti-nazi durante a II guerra mundial. O cantor Sérgio Godinho, então exilado em França, disse que ao ver tal manifestação constatou o fracasso do movimento. Os estudantes ficaram isolados. Nas eleições legislativas convocadas para Junho de 1968, a direita  gaullista obtém uma vitória retumbante.

Politicamente, os “maiistas perderam”. Já há 50 anos, as suas ideologias não tinham pernas para andar, mas ganharam no tocante a uma maior abertura da sociedade, quanto aos direitos do sexo feminino, aos direitos dos trabalhadores, e não só a sociedade francesa se tornou mais aberta e livre, como as demais sociedades ocidentais. O “mainstream” acabou por adoptar muitos dos elementos daquela revolução, hoje consensuais nas sociedades modernas.

A herança “maiista” é composta por vários herdeiros. Apenas uma minoria dos esquerdistas de então se mantém fiel às ideias da época. Alguns herdeiros, em desespero, recorreram, nos anos 70 e 80, ao terrorismo excitativo, as Brigadas Vermelhas, os Baader-Meinhof, o Potere Operario, entre nós o PRP-BR e as FP25. Todos acabaram derrotados após espalharem sangue e terror.

Uma grande maioria dos revolucionários de então, vendo os erros praticados e a realidade da China e da Albânia, que afinal não era nada melhor que a da URSS, acabou por defender a democracia e uma perspectiva reformista na prossecução de uma sociedade mais justa. Quando o liberalismo económico falhou, tendo criado sociedades muito mais desiguais, egoístas, materialistas, não se preocupando com quem fica para trás, espalhou a corrupção e a ausência de escrúpulos, com a defesa do sucesso a qual preço, aquele reformismo poderá conduzir o mundo numa via mais justa, menos desigual e onde a luta contra a pobreza seja uma realidade.

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