Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Défice de coerência

Eu tenho andado um pouco confuso com as últimas discussões em torno da evolução do défice do estado prevista para os próximos anos e confesso que tenho alguma dificuldade em seguir as opiniões dos especialistas e dos partidos políticos.

Depois de tudo o que foi dito nos últimos anos pensava que era consenso nacional que os défices do estado, acumulados ao longo dos anos, tinham criado uma situação insustentável e que foram os grandes responsáveis pela vinda da troika.

Por tudo isso causa-me espanto ver dirigentes de PSD e do CDS insatisfeitos com a redução do défice e empenhados em aprovarem na Assembleia da República diversas normas no sentido de impedirem que o Ministério das Finanças faça poupanças nas despesas previstas.

Deve ser problema meu, mas não consigo perceber como se pode controlar a despesa e reduzir o défice sem fazer poupanças.

O CDS e o PSD dizem que querem reduzir o défice ainda mais do que o governo está a fazer, só ainda não os ouvi dizer como o fariam.

Se o governo não pode poupar nas despesas de investimento nem noutras compras, talvez porque isso assegura negócios a algumas empresas amigas, só vejo que o queiram fazer cortando nos salários dos funcionários públicos e nas pensões de reforma.

O PC e o BE, por seu lado, têm passado anos e anos a defender a necessidade de recuperar a soberania nacional e de nos libertarmos da troika e dos credores.

Não vejo nenhum caminho mais curto para alcançar alguma soberania nacional do que conseguir reduzir a dívida e para isso o primeiro passo natural será deixar de contrair dívidas novas e ir pagando as que temos, o que só se conseguirá com algum excedente orçamental.

Já sei que me vão dizer que a dívida que temos é o resultado da submissão do estado ao grande capital, mas a verdade é que se continuarmos a ter uma dívida tão grande estamos a alimentar o monstro que é hoje o sistema financeiro.

Eu ainda nasci num tempo em que ter dívidas não era tão normal como hoje e por isso o momento em que acabei de pagar a hipoteca da casa foi para mim um momento de libertação e de recuperação da soberania.

Do lado da esquerda parece-me que a discussão continua ao lado da questão essencial.

O combate tem que ser contra a acumulação de riqueza por muito poucas pessoas e empresas, mas nesta luta qualquer medida isolada tomada por Portugal teria menos efeito que a picadela de um mosquito num elefante. Quando déssemos conta já teríamos sido atirados ao chão pela tromba ou pela cauda do elefante.

Acabar com a fuga aos impostos pelos muitos ricos e com os paraísos fiscais e assegurar uma melhor distribuição da riqueza tem de ser um objetivo à escala planetária.

Não podemos mudar o mundo todo duma vez, mas poderemos começar pela União Europeia e por isso, do meu ponto de vista, seria do interesse da esquerda o reforço e não a destruição da União Europeia, a começar pela criação de alianças entre os partidos de esquerda dos vários países de modo a darem força a esse combate.

Por esta e outras razões parece-me muito boa ideia que sejam criadas taxas sobre as grandes empresas e as transações financeiras que vão diretamente para o orçamento da União Europeia.

É muito pouco mas é um começo.

Apesar das incoerências em torno do défice, a coisa mais espantosa que li foi uma crónica do antigo ministro da economia, Professor Daniel Bessa publicada no Jornal Expresso, em que ele diz que a redução do desemprego é má para a economia.

O homem pode pensar o que quiser e ter as conversas que quiser com os seus amigos, mas se um professor de economia pode publicar coisas destas, alguma coisa tem de estar errada naquela ciência.

Mário Pereira  – Abril 2018

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