Manuel Silva
PSD: nem bloco central, nem bloco de direita
No último congresso do PSD ficou muito claro, especialmente pela voz de Rui Rio, que não haverá qualquer reedição do bloco central, o qual, aliás, só existiu entre 1983 e 1985, dado o país estar à beira da bancarrota e o FMI ter imposto uma aliança governativa entre o PS e o PSD para conceder o empréstimo salvífico das nossas finanças e economia.
Cavaco Silva chega à liderança do PSD quando a situação se mantinha crítica, mas o espectro da bancarrota havia passado, ainda que à custa de medidas muito duras. Rompe com o bloco central e provoca eleições legislativas que vence no mês de Outubro de 1985, dando início ao chamado período do cavaquismo, que duraria 10 anos. A partir daí, nem PS, nem PSD mostraram novamente vontade de voltarem a coligar-se. O PS fez um acordo de incidência parlamentar com o PCP, os Verdes e o BE, que, apesar de alguns arrufos, está para durar.
Nos últimos tempos, o PSD deixou de acreditar na vinda do diabo e aproximou-se do PS para efectuar acordos de regime. Para já, quanto à distribuição de fundos comunitários após 2020 e à descentralização administrativa. É necessário estabelecer acordos de médio prazo entre estes partidos, mas também com os demais, relativamente à justiça, à segurança social e à educação, sendo estas matérias discutidas após as eleições legislativas de 2019.
Apesar de ainda estar em fase de reorganização, o PSD já demonstrou – só não vê quem não quer, o pior cego, segundo uma velha frase feita – que não está só em busca de acordos com o PS, mas também a mostrar o manto diáfano com que cobre os números macro-económicos do seu governo. No último debate quinzenal com o governo na A.R., Fernando Negrão, líder parlamentar do PSD, provou, com dados concretos, que há menos consultas e mais demoras nas chamadas de doentes para consultas ou operações. No ano transacto, houve algumas centenas de portugueses que morreram à espera de uma cirurgia.
No anterior debate, Negrão tinha dito que o dinheiro destinado aos pobres (da Santa Casa da Misericórdia) não deve ser aplicado para salvar bancos mal geridos. Se ainda se quiser distinguir direita e esquerda, esta posição dos sociais-democratas coloca-os à esquerda do PS que, como escreveu recentemente na revista “Sábado” Pacheco Pereira, “serve melhor a política da troika que o PSD”.
Se o PSD não pretende o bloco central, deve também recusar um bloco de direita.
O único partido parlamentar de direita é o CDS. Os seus fundadores, especialmente Freitas do Amaral e Amaro da Costa, pretendiam a integração da direita na democracia. Na época revolucionária, o MFA e o governo provisório chefiado por Vasco Gonçalves proibiram todos os partidos de extrema-direita. A tendência deste sector foi entrar para o CDS, que controlou em vários locais do país. A rede bombista da segunda metade dos anos 70 incluia vários militantes do CDS que foram presos e condenados.
Quando se apercebeu que o partido estava demasiado à direita, Freitas do Amaral abandona-o. Com Paulo Portas, o CDS foi, a par do PSD passista, um partido da classe certa, do “país de cima”. Aliás, este cavalheiro, na direcção do tablóide intelectualizado que foi o “Independente”, mostrou um grande desprezo por quem vem de baixo, não nasceu em berço dourado.
Assunção Cristas afirmou no recente congresso do CDS ser candidata a primeira-ministra em 2019. Recordamos que a última sondagem conhecida atribuía àquele partido apenas cerca de 6% de votos. Cristas não é tão democrata-cistã como parece. O programa do CDS demonstra-o. O ideólogo do partido, Adolfo Mesquita Nunes, é tão ou mais liberal na economia que nos costumes.
Levanta-se a questão: e se o PSD ganhar eleições, não obtendo uma maioria parlamentar, podendo consegui-la com o CDS? Certamente deverá realizar uma coligação com o CDS, o que não significa a constituição de um bloco de direita, mas de uma frente reformista englobadora da direita democrática, do centro e do centro-esquerda, à semelhança da AD de Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Ribeiro Teles e do Movimento Reformador, na qual deverá manter a sua autonomia de partido de centro, aberto ao centro-direita e ao centro-esquerda, social-democrata, reformista, inter-classista e empenhado no combate à pobreza.
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