Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Vamos lá ter cuidado com a liberdade
Quando se diz a alguém para ter cuidado com a liberdade, o que se quer dizer é que tenha cuidado com o que diz ou o que faz.
Contudo, hoje gostaria que o título da crónica fosse tomado no sentido literal das palavras, significando que temos de ter cuidado com a própria liberdade para que ela não desapareça.
A liberdade traduz-se na possibilidade de vivermos livres de restrições nos nossos pensamentos e nas nossas ações.
É do senso comum pensarmos que os ataques à liberdade só podem vir da política, nomeadamente de lideres autoritários, mas a vida mostra que os ataques podem vir de muitas formas e de diferentes pessoas e entidades sendo as restrições políticas consequência de um ambiente social favorável que lentamente se vai instalando.
As declarações do presidente do Sporting apelando a que os sportinguistas só leiam o jornal e só vejam a televisão do clube teriam a mesma importância que ele próprio se não contribuíssem para a criação de um clima de tolerância às pequenas limitações à liberdade que vão acontecendo muitas vezes de força quase impercetível ou anedótica, como foi o caso presente.
O apelo a que os sportinguistas que fazem comentários em jornais, rádios e televisões deixassem de participar nesses programas, embora seja uma sugestão patética, é perigoso e revelador porque mostra que alguém se acha no direito de ser obedecido nos seus desejos independentemente das regras e das normas sociais.
A ideia de que alguém ao ser eleito passa a ter o direito a dispor da vida dos seus eleitores talvez tenha sido normal nos tempos em que os imperadores romanos eram eleitos, mas é, nos dias de hoje,uma aberração.
No campo da política temos tido recentemente alguns lideres que, começando por ser eleitos de forma democrática, assumiram depois posições ditatoriais contornando e adulterando todas as regras. A lista é longa sendo os mais significativos: Putin na Rússia, Erodogan na Turquia e ainda os caso mais exóticos dos presidentes da Venezuela e das Filipinas, sendo que este último se acha no direito de mandar liquidar os que ele indesejáveis.
O padrão é sempre o mesmo. Estas pessoas que se consideram dotadas de poderes especiais e encarregadas de uma missão que as coloca acima das leis, têm também em comum o facto de lidarem com os críticos de um modo brutal.
A liberdade e a democracia não podem ser um exclusivo do espaço político. Todas as organizações da nossa sociedade – sobretudo as que são associações abertas – devem ser seguir procedimentos respeitadores das regras democráticas e da liberdade.
As atitudes e declarações do presidente do Sporting exigem que gastemos algum tempo com elas porque contribuem para que se instale um clima negativo em que qualquer crítica passa a ser equiparada a crime.
Estas atitudes têm uma componente moral (ou falta dela) pois assentam no princípio que a vontade do líder ou chefe é justificação suficiente para a limitação o da liberdade dos outros. Esta ideia foi levada ao extremo na Coreia do Norte que hoje é o exemplo mais completo de uma sociedade que vive para obedecer a um chefe e, pelo que nos é dado ver, não parece ser um lugar particularmente agradável para se viver.
Infelizmente, não são apenas os políticos autoritários que constituem as ameaças, pelo que é importante manter o combate a todas os políticos autoritários, mas não desvalorizar estes pequenos incidentes que são profundamente reveladores do que algumas pessoas seriam capazes de nos imporem se tivessem os meios e a força necessária para tal.
É altura de todos os que nos habituámos a ser livres pensarmos que em qualquer momento pode acontecer um recuo, pelo que é necessário reagirmos cada vez que aparece alguém com discursos ou práticas desrespeitadoras da liberdade e da personalidade dos outros.
Mário Pereira Fevereiro de 2018
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