Nazaré Oliveira

COISAS E GENTE DA MINHA TERRA - REFLEXÕES SOBRE A PALAVRA “VELHO”

A minha crónica de hoje não fala de COISAS E GENTE DA MINHA TERRA. Mas alguma relação existe.

Há dias, em conversa com um amigo que já não via há algum tempo, disse-lhe eu que estava velho. Respondeu-me ele, com a melhor das intenções: “Velhos são os trapos”. Este meu amigo, como tanta gente, não gosta da palavra “velho” e, eufemisticamente, prefere a palavra “idoso”. É assim como quem quer fugir com o rabo à seringa. Ora, eu prefiro a palavra “velho”. “Idoso” é uma palavra burocrática, usada  nos documentos, nas estatísticas, com expressão numérica oficialmente estabelecida para o início do seu estatuto. Por vezes é substituída pela palavra de origem latina “sénior” (chama-se a atenção para o uso incorrecto da grafia e pronúncia do plural desta palavra, que é grave e sem acento — ou seja, “seniores” — e não esdrúxula e acentuada, como por aí se escreve e pronuncia, até em documentos oficiais e por alguns diplomados que tinham obrigação de não o fazer). Mas voltemos à palavra bem portuguesa “velho”, derivada do vetus latino, carregada de maior significado, nomeadamente afectivo, que a palavra “idoso” não transmite. É certo que a palavra “velho” é muitas vezes tomada em sentido pejorativo, sobretudo em relação às coisas: está velho, não presta”. Mas a inversa também é verdadeira: “é velho, é uma relíquia”. Voltemos à expressão “velhos são os trapos”: até os trapos tinham o seu préstimo; lembremos que, ainda não há muito tempo, serviam para as tecedeiras fazerem as mantas de trapos que agasalharam tanta gente, nas noites frias de inverno.

Já tenho lido considerações sobre a velhice, de algum interesse mas que pecavam por escassas. Entendo, porém, que a palavra “velho” merece uma reflexão mais aprofundada: apelei para os meus parcos conhecimentos de literatura portuguesa, especialmente poesia, e não encontrei a palavra “idoso”, mas sempre a palavra “velho”. Ora vejamos: Camões dá-nos o episódio do “Velho do Restelo”. Ninguém pensará que ele podia ter escrito “o Idoso do Restelo”. Guerra Junqueiro termina um seu poema: “Minha velha ama, canta-me cantigas para me embalar”. Nunca diria “minha idosa ama”. E ainda na poesia da velha que vai para o moinho: “Toc, toc, toc, a velhinha atrás e o jumentinho adiante”. Pois é: a palavra “velho” permite o carinhoso diminutivo “velhinho” e “velhinha”, que “idoso” não permite. Quando Carlos do Carmo canta “num banco de jardim, uma velhinha está sozinha”, imaginemo-lo a cantar “num banco de jardim, uma idozinha está sozinha”. Onde está a poesia? Podíamos multiplicar os exemplos. Lembremos a letra da bela música de Roberto Carlos, dedicada ao pai: “Meu querido, meu Velho, meu Amigo”. Ponham lá “Meu Querido, meu Idoso, meu Amigo”. O “idoso” morreria asfixiado entre o Querido e o Amigo. A palavra “velho” é tão rica de significado que, até hoje, tem sido a única que tem servido para tecer um louvor ao diabo: não se diz que o diabo sabe muito porque é velho? Velhice também significa sabedoria.

Deixemos, pois, “idoso” para as burocracias e estatísticas e reservemos “velho” para os afectos e para a poesia.

Quando eu era novo e ouvia dizer (sobretudo às senhoras) que tinham medo de envelhecer, eu sempre lhes dizia. “eu tenho medo é de não envelhecer”. Saudades da juventude! Quem não as tem? Mas a saudade implica a permanência no tempo!

Graças a Deus, estou “velho”! Mas “estou”! E quantos dos meus amigos (e não só) já não estão. É certo que as pernas já me não ajudam muito, mas, como não penso nem escrevo com as pernas, cá vou escarafunchando no passado, para continuar a escrever as minhas crónicas sobre COISAS E GENTE DA MINHA TERRA, que irão prosseguir nos próximos números da GAZETA DA BEIRA.

 

 

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