Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Opiniões e Factos

O grande facto que dominou a política nacional no início de janeiro e desencadeou as maiores críticas ao governo foi uma declaração da Ministra da Justiça na qual disse que o mandato da Procuradora Geral da República deveria ser único e não renovável.
Esta declaração deu origem a uma tempestade de ataques à ministra e ao governo como se ela tivesse dito uma grande blasfémia. Só faltou mesmo ser queimada numa fogueira.
Depois dum enorme alarido, um jornalista deu-se ao trabalho de ir ao site da Procuradoria Geral da República fazer uma busca sobre as declarações da atual Procuradora Geral sobre o assunto e encontrou duas situações em que ela, em declarações formais e públicas, defendia claramente que o mandato do Procurador Geral, sendo de seis anos, deveria ser único e não renovável.
Convém lembrar que a Procuradora Geral e a Ministra pertencem ambas aos quadros do Ministério Público e que essa é a posição tida por unânime entre os profissionais do Ministério Público
Provavelmente, a ministra da justiça quando respondeu à pergunta dos jornalistas não terá imaginado o barulho que iria causar. O problema começou quando a sua declaração foi considerada um “facto político” muito importante com efeitos no funcionamento do Ministério Público.
O ruído que se seguiu a estas declarações mostra que tanto jornalistas como políticos tendem a a sobrevalorizar o que se tornou hábito designar de “factos políticos”, que na maioria das vezes são apenas declarações que, com intenção ou sem ela, condicionam as opiniões e a ação dos políticos, bem como a opinião pública e e o que é publicado como comentário ou notícia.
Honra seja feita ao nosso atual Presidente da República, que nos seus tempos de jornalista e analista político, terá sido o nosso maior especialista na criação de “factos políticos”. Capacidade que parece ainda não ter perdido.
Este hábito de falar sobre os “factos políticos” sem analisar os factos reais coloca, por vezes as pessoas em situações caricatas.
Deverá ter sido desagradável para os políticos, jornalistas e comentadores que tão veementemente condenaram Ministra a Justiça ouvir o que tinha dito a própria Procuradora Geral.
Uma outra situação que correu mal, está relacionada com o caso da Associação Raríssimas, hoje já desaparecido das notícias.
Lembramos-nos de ouvir Assunção Cristas e outros dirigentes do CDS a sugerirem a demissão do ministro Vieira da Silva por ter autorizado um subsídio àquela Associação em condições estranhas.
Obviamente, que o ministro Vieira da Silva não deveria ter-se envolvido naquela história, mas não deixa de ser curioso que o despacho do ministro tenha sido dado sobre uma proposta da diretora do Centro Distrital da Segurança Social, ainda a nomeada pelo governo do PSD/CDS e militante do CDS, que foi responsável pela organização de todo o processo.
Estas histórias mostram que as pessoas não cuidam de assegurar alguma consistência e coerência nas suas opiniões e tendem a aproveitar a onda que está a passar como se fosse a última.
Por alturas do Natal ocorreu em Oliveira de Frades um extraordinário “facto político”. A Câmara Municipal comprou o bolo-rei a um fornecedor que fazia o melhor preço, por sinal de fora do concelho.
Muitas pessoas com responsabilidades, incluindo vereadores da Câmara, fizeram fortes críticas a esta opção e chegaram a dizer que isso era um atentado contra o comércio local.
Tomando este facto como ponto de partida seria interessante considerar o que se poderia dizer:
– Se a Câmara de Vouzela recusasse comprar bolo-rei a um produtor de Oliveira de Frades e o comprasse mais caro em Vouzela;
– Se a Câmara de Oliveira de Frades adotasse esse critério em todas as compras;
– Se todas as câmaras adotassem esse critério e prejudicassem as empresas de Oliveira de forma sistemática.
A dificuldade não é ter uma opinião sobre um facto isolado e olhando a partir de um único ponto de vista, mas sim ter opiniões que possam ser defendidas perante diversos factos ou olhando para o mesmo facto a partir de vários pontos de vista.
Mário Pereira
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