Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

Reconstruir e replantar

Tenho ouvido dirigentes políticos, jornalistas e comentadores dizerem que a reconstrução dos casas, das instalações agrícolas e industriais danificadas nos incêndios  é demasiado demorada.

A minha experiência pessoal dá uma ideia do que são e vão ser as dificuldades deste processo.

A caldeira que aquecia a água na minha casa ficou inutilizada na sequência do incêndio de 15 de outubro e só no dia 29 de novembro consegui ter água quente outra vez.

É verdade que houve contratempos de toda a ordem, mas eu não estava dependente de projetos, autorizações, candidaturas nem apoios.

Haver contratempos será o normal nestas situações, por isso, conseguir uma reconstrução rápida exige uma ação verdadeiramente coordenada e dinâmica dos lesados, das câmaras, do governo e das organizações que dão apoios.

Não procuro com isto desculpar eventuais atrasos.

Apenas, tento alertar para o facto de que a reconstrução ainda só recomeçou e que ou encaramos isto como um processo para 10 anos, ou daqui a dez anos estamos a discutir os danos causados por outro incêndio.

Ao ouvir pessoas que considero inteligentes, que são instruídas e importantes falarem da reconstrução parece-me que elas acreditam que a reconstrução duma casa ou de uma instalação agrícola ou industrial se faz por um passe de mágica.

Seria assim como num filme. Na primeira parte vem o fogo destruir tudo e na segunda passaria um mágico, tipo Luís de Matos, a pôr tudo novo.

Reerguer o que pode ser reerguido e limpar os escombros das construções que não vão ser reconstruídas vai ser um processo de vários anos, que com grande probabilidade não estará terminado quando os partidos que agora estão na oposição chegarem ao governo, mesmo que não seja nas próximas eleições.

Quando os deputados Catarina Martins e Pedro Soares do Bloco de Esquerda visitaram Oliveira de Frades, tive oportunidade de lhes dizer que, se querem fazer algo de útil para prevenir novos desastres, deveriam fazer uma intervenção do Parlamento sobre esta situação todas as semanas,  pois se não o fizerem quando chover e fizer frio em Lisboa acaba a preocupação com os incêndios e torna-se muito mais importante discutir se o ministro x se deve demitir ou se sede  do Infarmed deve ir para o Porto.

Esta recomendação pode, também, ser feita aos deputados do nosso distrito, que andam desaparecidos. Eu sou um cidadão razoavelmente atento à questões políticas, mas neste momento só me ocorre o nome de dois deputados eleitos pelo distrito (e um é por aparecer na televisão a falar de futebol) e não deve ser apenas devido às minhas dificuldades de memória.

É em situações como esta e outras que afetam gravemente o interior que seria importante os deputados do distrito terem bem presente a sua dupla filiação. Se o pai é o partido a mãe é o distrito por onde foram eleitos.

Se a reconstrução dos edifícios tem os seus quês a replantação e a reorganização da floresta é um desafio muito mais complexo e demorado.

Eu tenho cerca de um hectare de terrenos, umas parcelas que sempre foram floresta e outras onde já me lembro bem de lá andar a chachar e a regar milho ou à vindima.

Nos meus terrenos como nos outros todos da aldeia e de muitas aldeias, tanto o chão como as árvores são completamente pretos.

O plano por agora é apenas cortar as árvores queimadas.

Eu gostava de plantar árvores mais resistentes ao fogo, mas tenho de as plantar este inverno pois daqui a dois anos as silvas e os fetos serão tão grandes que se torna impossível entrar  em alguns terrenos.

Parece-me necessária uma campanha de informação muito forte para ajudar os pequenos proprietários que, como eu, não querem plantar só eucaliptos.

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