Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Um novo equilíbrio

Queria escrever uma crónica sem falar dos incêndios, mas não me ocorre nenhum assunto da atualidade que se sobreponha ao grande desastre que sofremos. O orçamento de estado, algumas greves que têm acontecido ou as declarações de alguns políticos parecem-me nestas circunstâncias coisas irrelevantes.
Gostaria de começar agradecendo do fundo do coração às pessoas que já começaram a reconstruir as suas casas e aos empresários que já iniciaram a reconstrução das suas empresas, porque num momento de desânimo é bom sentir à nossa volta esta energia e esta capacidade de iniciativa e de resistência.
É bom, no meio de uma paisagem desoladora, ver renascer casas e edifícios industrias, ao mesmo tempo que a erva verde começa a retomar o seu lugar.
A nossa terra vai demorar vários anos até fechar todas as feridas e a questão agora é o podemos fazer para ajudar e acelerar esse processo.
Esperemos que o governo leve a sério o desafio de criar serviços de prevenção e combate aos fogos florestais adequados aos tempos atuais, deixando de lado a ideia romântica de que as populações, os bombeiros locais e meia dúzia de aviões e helicópteros resolvem o problema.
Vivemos numa região em que as pessoas, que aqui viviam há 100 anos atrás, produziam a sua comida e em boa parte até a própria roupa, mas apesar de terem ardido os campos e até os alimentos já colhidos, não houve fome nem uma crise grave, porque na realidade a nossa alimentação vem sobretudo dos supermercados e apenas em pequenas quantidades daquilo que vamos produzindo localmente.
O tempo em que as nossas terras eram habitadas por gente bastante para controlar a natureza vivendo num equilíbrio estável esgotou-se e hoje há um claro desequilíbrio. Somos menos e vivemos concentrados deixando espaço para o crescimento de todo o tipo de vegetação e da floresta.
O domínio de tecnologias que nos permitem ter luz à noite, água a correr nas torneiras, fazer calor no inferno e frio no verão reforçam esse sentimento de controlo e distância.
Hoje sentimos que não dependemos da natureza e até nos esquecemos que somos parte dela, ignorando que os humanos, com as capacidades que hoje temos, apenas andam na terra há 200 000 anos, o que é muito muito pouco tempo.
As religiões da tradição judaica cristã e outras, com a sua crença de que a natureza foi criada por Deus para deleite e usufruto dos humanos, têm reforçado este sentimento.
Como ficou bem claro a 15 de outubro, este desequilíbrio potencia a força dos elementos com danos para os humanos, os seus bens e também para a natureza.
Além de todas medidas políticas e reorganizações que são necessárias, parece óbvio que teremos de mudar o modo como nos integramos na natureza de que somos uma pequena parte.
Como a história da Terra demonstra, a natureza passa muito bem sem nós e não acredito que as pedras ou as árvores sentissem a nossa falta, mas a verdade é que os humanos, por sermos muito provavelmente o seres mais complexos que a natureza criou, dependem totalmente dos outros elementos existentes no ambiente.
Esses desequilíbrios são em boa medida responsáveis pelas alterações do clima, que potenciaram este fogo de dimensões extremas e poderão trazer outros fogos ou cheias de dimensões nunca vistas entre nós.
Aceitando que a nossa relação com a natureza é de grande interdependência teremos de pensar como podemos ajudar à criação de um equilíbrio saudável.
É admirável o esforço feito por pessoas e organizações para ajudar as pessoas que sofreram perdas nos incêndios, mas agora há que iniciar um processo de ajuda à natureza para que ela recupere e possa manter uma relação simpática com quem continua a viver por estas serras e vales de Lafões.
Comentários recentes