António Gouveia

Historia vero testis temporum…

Quando esta crónica escrita a 18 novembro chegar ao leitor (a), talvez já tenha começado a chover. Não sei por quanto tempo, ninguém sabe, o clima é outro, as alterações climáticas cada vez mais óbvias. Mas é bom que chova dias fora, muito preciso é. Por isso o título acima, expressão do De Oratore, livro do republicano e romano Cícero (106-43 a.C.), advogado, orador, filósofo, escritor e político, que diz que a História é “verdadeiramente o testemunho dos tempos, a mestra da vida, a luz da verdade e a vida da memória”. Por ser assim, vale a pena o meu testemunho e memória de há 50 anos, era um jovem de 23 anos, daquela noite fatídica de 25 de novembro 1967, começava um fim-de-semana, ido da Força Aérea em Monsanto, com um camarada de arma à base da Ota, rever amigos que connosco tinham regressado de Angola a 13 de maio – coincidência, dia abençoado, também parti em 1965 neste mesmo dia mas o avião teve de voltar à Portela com uma avaria uma hora depois, uma bênção, – onde, acaso fortuito, fomos convidados para um baile que se realizaria em Alenquer nessa tarde e até às tantas da noite. Outra coincidência, meio século depois, este 25 de novembro é o início de outro fim-de-semana! Era já noite fechada, ouvimos ter começado a cair uma tromba de água como nunca se vira e, rapidamente, vimos, já fora do salão, inundar literalmente aquela vila presépio, os altares das suas encostas transformados, num ápice, em açudes e largas frechas de misarelas, cortinas de água que iam enchendo o afluente (também Alenquer) desta linda vila perto de Lisboa. A fúria e a força das águas era tanta, tamanha a confusão e nós tão espavoridos com o que víamos, apesar de jovens ousados e aventureiros, que um de nós, temendo o pior, alvitrou o regresso à base, expressão de decisão sensata e providencial que de pronto acolhemos pois, no dia seguinte, soubemo-lo, colegas menos prudentes, já não conseguiram sair dali meia hora mais tarde. Já na base aérea da Ota acompanhámos as notícias do temporal (haveria de passar) e fomos dormir para acordar com a notícia de uma das maiores catástrofes de sempre, esmagadora e impressionante (hoje, sabe-se, a segunda, depois do terramoto 1755). No regresso a Lisboa, no domingo e autocarro da base, pude observar, estupefacto e triste, a brutalidade da intempérie no turbilhão do caudal do rio, revolto e desembestado, pejado de eletrodomésticos, viaturas, ramos esgalhados, árvores arrancadas, toda a espécie de lixo e entulho a caminho da foz, tragédia nunca vista. Foram 700 mortos (400 então, a censura, para não causar alarme, mandou fixar aí o número), a maioria de famílias pobres moradoras em barracos de adobe e de miséria construídos no leito dos riachos junto ao Trancão nesses arrabaldes de Lisboa. O regime de António Salazar, assim confrontado com tamanha violência, começaria a romper e a ceder, três meses mais tarde, tinha eu entrado num dos bancos da baixa lisboeta, com a manifestação dos bancários e prisão de Daniel Cabrita pela PIDE, as do maio de 68 em Paris, e, no dia 3 agosto 1968, no forte de Santo António do Estoril, tornado a fraqueza e maior fatalidade do presidente do Conselho que ali passava férias em queda livre.

Ainda outra coincidência (são várias) e um paradoxo mais atuais: o atual presidente do Conselho chama-se António, agora de esquerda, confronta-se com catástrofes de sentido contrário, incêndios e, pior ainda, uma seca severa que, espero bem, termine. Significa isto que, sendo a História a mestra da vida, ela ensina-nos que há coincidências e factos que as ideologias não conseguem ultrapassar, sejam elas de direita ou de esquerda, impostas em ditadura ou em democracia, do tipo geringonça, trapizonga, passarola ou nave tripulada sofisticada. E, se assim é, vale a pena atalhar caminho para que não se repitam muitos dos erros que estas calamidades puseram a descoberto nestes casos de seca e incêndios, também em Vouzela e Oliveira, S. Pedro do Sul já tinha tido a sua conta. Mas, sobre isso escreverei no próximo número.

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