Manuel Silva
Hegemonia mundial nas mãos de déspotas?
HEGEMONIA MUNDIAL NAS MÃOS DE DÉSPOTAS?
Após a queda do muro de Berlim, a implosão dos regimes comunistas no leste europeu e o fim da URSS, os EUA passaram a ser a única potência mundial. Sistemas comunistas existentes em África, como o de Angola, tornaram-se serventuários da faceta mais abjecta do capitalismo, ainda que alguns partidos dirigentes desses sistemas, de que são exemplo o MPLA e a FRELIMO, tenham aderido à Internacional Socialista, da qual faz parte o PS.
Na altura, era comum dizer-se que o socialismo, incluindo o democrático, tinha morrido e o capitalismo liberal vencera. Francis Fukuyama publicava um livro intitulado “O fim da História e o último Homem”. O capitalismo liberal ou liberalismo económico, posto em prática pela generalidade da direita e mesmo por muitos partidos socialistas e sociais-democratas, aumentou a desigualdades sociais, com a desregulamentação incrementou a corrupção, aumentou a pobreza e a miséria, deparando com resistência e luta.
O país mais liberal na economia e conservador quanto a costumes e direitos sociais, os EUA, envolveu-se em guerras injustas e causadoras de centenas de milhar de mortos no Iraque e outros países árabes ou na ex-Jugoslávia. Será que aquando do ataque cobarde às torres gémeas, que provocou à volta 3 000 mortes, nenhum americano se lembrou do terrorismo de Estado praticado por vários governos republicanos e democratas do seu país naquelas zonas do globo, no Vietname, em Hiroshima e Nagasáqui, ou do apoio da CIA a golpes fascistas na América Latina, causadores de carnificinas?
A União Europeia teve sempre, nestes e noutros momentos, uma política seguidista face ao amigo americano. O Ocidente passou a ser detestado em vários pontos do globo. Esta política é tão responsável como o ódio do islamismo radical às nossas liberdades e direitos pelos atentados terroristas que matam tanta gente nos EUA e em vários países da UE.
A UE é um anão em bicos de pés na cena política internacional. A política externa e interna ao serviço do alto capitalismo e da especulação financeira efectuada pelos últimos governos americanos conduziu à Presidência do país do Tio Sam um inculto, narcisista e populista reaccionário que ninguém leva a sério. Os EUA são a chacota do mundo.
Quem aproveita esta situação são Putin e Xi Jin Ping, líderes da Rússia e da China. O primeiro assume cada vez mais o papel hegemonista outrora praticado pelos czares e pelos comunistas relativamente à maioria dos antigos estados da URSS, mas também em outros pontos do globo, como na guerra da Síria ou na luta entre Trump e Kim Jong-un. Evitar uma guerra nuclear que envolva a América, ambas as Coreias e o Japão passa inevitavelmente por um papel activo de Moscovo.
Na última cimeira de Davos, a grande estrela foi o líder do PC chinês Xi Jinping. Trump passou quase despercebido.
No recente congresso do Partido Comunista da China regressou o culto da personalidade, à volta de Xi Jinping, como já não se via desde a morte de Mao Tsé Tung, há mais de 40 anos.
Até ao falecimento do “grande timoneiro”, o pensamento Mao Tsé Tung era o guia do PC chinês, a partir daquele congresso passa a ser o pensamento Xi Jinping.
Como escreveu, há alguns anos, Miguel Sousa Tavares, “a China reúne o pior do capitalismo e do comunismo”. A par de um regime de partido único, que controla toda a sociedade e proibe os direitos e liberdades fundamentais, existe um capitalismo selvagem. É certo que existe uma classe média forte, mas minoritária, os ricos e muito ricos são uma minoria. Apesar de a maioria da população viver melhor que nos anos loucos da revolução cultural, há muitos milhões de pessoas a viver na pobreza e na miséria, há desemprego, que era inexistente no tempo de Mao, trabalha-se 12 e 14 horas diárias, sem direito à greve, sendo os sindicatos controlados pelo poder, seguindo a velho ensinamento de Estaline: “os sindicatos são correias de transmissão do partido”.
Na Rússia também não há democracia, perseguem-se e matam-se os inimigos políticos e jornalistas democratas, continuando Vladimir Putin a aplicar as ,lições por si aprendidas na polícia política do regime comunista, o KGB.
A crescente fraqueza do Ocidente conduziu a que a hegemonia mundial esteja cada vez mais nas mãos dos déspotas Putin e Xi Jinping. Se o finalismo histórico marxista falhou, o finalismo histórico capitalista liberal leva o mesmo caminho.
Comentários recentes