Crónicas do Olheirão de Mário Pereira
A prevenção não tem dignidade
No dia 31 de Agosto, ao chegarmos ao final dum Verão, particularmente, trágico no que respeita a fogos florestais, li no jornal Público uma entrevista com o Secretário de Estado das Florestas em que ele disse:
“Temos de trazer a lógica do combate para a prevenção. Só no momento em que conseguirmos que quem está no combate possa fazer prevenção é que conseguiremos vencer o desafio que temos pela frente”.
Só depois de ler esta entrevista e de ouvir alguns comentários na rádio é que, verdadeiramente, tomei consciência de que em Portugal a prevenção dos fogos florestais não tem ligação orgânica com o combate, dependendo de ministérios diferentes.
O que me motivou a escrever esta crónica foi a reação do Presidente de Liga dos Bombeiros o Sr. Jaime Marta Soares à entrevista do Secretário de Estado, que ouvi na TSF logo pela manhã daquele dia, na qual ele se manifestou profundamente contrário às ideias do Secretário de Estado.
O locutor de serviço resumiu a reação do Presidente da Liga dos Bombeiros numa frase, por ele dita: “ A função dos bombeiros não é prevenir fogos, mas apagá-los”.
Esta afirmação traduz toda uma cultura e em boa verdade temos de dizê-lo, sem subterfúgios, é uma das muitas razões pelas quais a nossa floresta continua a arder.
Esta afirmação faz tanto sentido como o Bastonário da Ordem dos Médicos vir dizer que os médicos não têm que se preocupar com a prevenção das doenças, porque o seu trabalho é tratá-las.
Em termos de segurança pública equivale a que a GNR e a PSP digam que não fazem prevenção da criminalidade, porque o seu trabalho é prender os ladrões e os criminosos:
O equivalente militar seria o nosso exército declarar guerra a Espanha, porque a sua função é participar em guerras e não manter a paz.
A frase do Sr. Jaime Marta Soares, que é o Presidente da Liga dos Bombeiros e que nessa qualidade aparece com frequência na televisão a falar de incêndios, pela sua clareza mostra tudo o que é necessário fazer.
Há que mudar muita coisa na organização dos serviços, mas se os bombeiros não mudarem esta forma de pensar continuará tudo na mesma.
A forma como o Sr Jaime Marta Soares vê a função dos bombeiros é tão perniciosa que, no limite, o estado deveria deixar de apoiar as corporações que quiserem seguir o pensamento do Sr. Presidente da Liga dos Bombeiros.
É do mais elementar bom senso que os bombeiros estejam empenhados na prevenção dos fogos florestais. Compreendo que os bombeiros não queiram ser usados como sapadores florestais voluntários e andarem com roçadoras às costas, mas não me parece que a prevenção se limite a essas tarefas, aliás tão necessárias quanto respeitáveis.
Sem me demorar muito a pensar no assunto consigo identificar algumas ações de prevenção complementares à ação dos sapadores florestais e dos serviços das juntas de freguesia e das câmaras municipais em que bombeiros poderiam ter um papel central, por exemplo:
– Fazer queimadas controladas para criação de zonas de contenção do fogo.
– Limpar as bermas das estrada e dos caminhos municipais durante o inverno recorrendo ao fogo.
– Vigiar a floresta, sinalizando as zonas de perigo que exigem a intervenção da respetiva câmara municipal, nomeadamente, dos serviços da fiscalização.
– Criar equipas de vigilância nas épocas de risco.
– Ajudar os proprietários florestais a implantarem procedimentos que contribuam para a contenção dos incêndios.
– Nas vistorias a habitações e outras instalações terem em atenção as medidas de auto-proteção que possam justificar-se pela proximidade da floresta.
Do mesmo modo, também os gabinetes florestais dos municípios só se justificam se contribuírem para a prevenção dos fogos floresta
Se não dermos dignidade à prevenção, além da floresta e dos bens continuaremos a queimar dinheiro.
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