CÃO DE LOIÇA por Rui Chã Madeira

Em como acreditar pode ser uma falácia milagrosamente rentável

Tal como um pássaro tem de voar para ser o que verdadeiramente é, o ser humano, com o propósito de manter-se o mais equilibrado possível no mundo físico que o rodeia, necessita de acreditar. Aceitar como real determinados acontecimentos, ao contrário do que se possa supor, não depende estritamente da nossa tomada de consciência. Isto significa que admitir como verdadeiro é essencialmente uma condição emocional construída e constantemente monitorizada no nosso encéfalo para que a possibilidade de controlo consciente e em consonância a hipótese de dúvida seja diminuída. Acrescentando a este condicionamento neurobiológico, acreditamos porque aprendemos a aceitar que certas circunstâncias são assim porque sempre o foram e sempre serão. Acreditamos porque os outros também acreditam e constrangem-nos para aceitarmos, sem perguntas, que existe um só caminho e que esse é o mais correto. Somando as partes, acreditamos porque é mais fácil e portanto menos exigente.

A crença e a fé surgem provavelmente como o substrato mais justificativo do processo de acreditar, principalmente quando considerado à luz do catolicismo. Não haverá, porventura, outra forma mais eficaz de responder a dúvidas metafísicas, principalmente quando desde os primórdios da evolução humana muitos acontecimentos naturais não tinham, ao contrário de hoje, qualquer explicação plausível avançando, desse modo, a hipótese sobre-humana. Considerando que o acreditar católico é algo estritamente pessoal e intransferível, sabemos perfeitamente que existem alguns que acreditam mais, outros que acreditam menos e outros ainda que, nos bastidores, sabem como controlar e aproveitar a crença e a fé dos outros em seu próprio proveito. Parece-nos bastante plausível que estes últimos manipulam o processo universal de acreditar ainda mais quando se torna um método extremamente rentável.

Teremos, nestes próximos dias, com especial relevância no dia 13 de maio, uma prova irrefutável da manipulação do sistema de acreditar. No mesmo espaço estarão centenas de milhares de seres humanos com diferentes crenças, vontades e especialmente fé. A grande maioria, sem qualquer refutação, acredita em algo sobrenatural que personifica o início e o fim de todas as coisas. Outra parte, menos sensível, por obrigações de vários domínios, sentindo-se bem nas suas dúvidas, comparticipa com meio acreditar. Outros tantos, expeditos, dispondo a santidade para segundo plano, aceleram a máquina comercial que debita velas, imagens, terços e outros adornos. A santa sé, com o incansável propósito de salvaguardar e apaziguar as almas anunciou a canonização, por comprovado milagre, dos três pastorinhos. Por este andar, com um pouco de devoção pode, a qualquer momento, surgir outro milagre até porque o mercado está montado e por um preço irrisório as velas depois de derretidas voltam a acender.

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