António Gouveia
Regresso às raízes… ou nem tanto!

Maria Helena da Rocha Pereira deixou-nos há dias com 91 anos. Nascida aqui no Porto, foi a primeira mulher a ascender ao topo da hierarquia académica, catedrática de letras, cidadã desde muito nova devotada à sua universidade, Coimbra, e aos seus alunos uma vida cheia e inteira, solteira por isso mesmo, a sua opção de vida – não seria possível ser de outra maneira e foi por aí que foi – uma mulher dedicada às letras com ligações às raízes mais profundas da nossa cultura e civilização. Traduziu obras dos clássicos do grego e latim que ela escrevia e falava bem, línguas mortas em desuso que agora alguns querem ressuscitar (aplaudo) – entre outras, “A República” de Platão -, enfim, uma mulher ligada à cultura do nosso passado comum para quem o célebre grito “O tempora! O Mores!” de Cícero, nas suas Catilinárias, espantado pela devassidão desses tempos da antiga Roma e de alguns revolucionários, como não espanta ainda hoje a qualquer ancião colocado perante a evolução da sociedade no lado mais errado da vida nesta luta ansiosa de querer subir e trepar esta torre de Babel, metáfora bíblica prodigiosa, anciãos que, como eu, sentem próxima a meta e percebem, não percebemos antes, talvez por falta de tempo, que já não vai haver tempo para sabermos mais e, pior ainda, que, afinal, tão pouco sabemos. Sócrates tinha razão. Mas só ao dobrar os 70 acreditamos.
Esta de voltarmos às (nossas) raízes, pouco tempo para breve paragem e reflexão, por muito pouco que seja neste compasso de espera deste outro tempo moderno de muita ansiedade, fugacidade, celeridade, rapidez e urgência, faz-me regressar a 2008, período ainda recente da nossa história e memória em que tivemos (e continuamos a ter) uma sensação penosa de que quase tudo está a mudar. E muda como nunca aconteceu antes, assim parece, são períodos que se repetem desde há séculos com mais ou menos fragor e intensidade, mais ou menos relevância e consequências brutais quando analisamos os maiores cataclismos históricos que aconteceram e o lado errado onde estavam as várias sociedades que com eles se confrontaram. O curioso é que, quando voltamos às nossas raízes e vamos ler (recordar e aprender), ao desfolhar os clássicos, Platão e Aristóteles, o professor e o aluno, fundadores do liceu e da academia, que escreveram (ou ditaram) diálogos aí por volta do ano 400 a.C.), lemos assim, do professor: “Aqueles que ganham muito dinheiro continuam a injetar o ferrão tóxico dos seus empréstimos sempre que podem”. E do outro, o aluno: “Hoje em dia, a maior parte das pessoas prefere a vida do consumo e procura o prazer ou a riqueza ou a fama”. Outra curiosidade e coincidência, quase quatro mil anos passados, continuamos com os mesmos problemas, as mesmas ilusões e seduções a que não conseguimos resistir. Cem anos depois das aparições – ou melhor, visões, há agora uma mudança na aproximação do fenómeno pela igreja católica, é assim que o bispo D. Carlos Azevedo traça o que se passou em Fátima no dia 13 de maio de 1917 nesse princípio de milénio -, tal como neste ano de 2008 que atrás já referi, princípios de milénios, o mundo sempre pareceu soçobrar. Mas não vai ao fundo, sempre se renovou gerando uma sociedade melhor. Mas nem compreender esta repetição da história nem aprender. Talvez faça parte de um jogo de ilusões das nossas vidas, jogo ora de comédia ora de tragédia que alguns definem como destino como diz o fado-canção do ano em que nasci: “Quando nasce uma pessoa/Traz o destino marcado/Que a sorte abençoa/Ou a tinta o vil pecado … Ninguém foge ao seu destino/A sorte não cai do céu/Já se traz de pequenino/A sorte que Deus nos deu”. Quando escrevo esta crónica estou a minutos do Sporting-Benfica, estória de lazer e comédia (tragédia para alguns) fácil de ultrapassar. Amanhã, outra história, Macron como presidente ou a Marine? Por mim, aposto no primeiro, é melhor não andarmos para trás, há raízes onde não vale “Le Pen” regressar.
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