CÃO DE LOIÇA por Rui Chã Madeira

Sobre a responsabilidade parental

Ser pai e ser mãe é genuinamente a maior responsabilidade que um ser humano pode ter no decorrer da sua vida. Não existe compromisso mais complexo do que promover um saudável desenvolvimento pessoal e social de uma criança, especialmente quando esta inicia a fase de assimilação e acomodação do mundo exterior metamorfoseando o seu existir biológico num ser substancialmente existencial. Sobejamente instituído, considera-se que os progenitores são fundamentais no intricado exercício de apontar, com todos os defeitos, virtudes, normas sociais e paradigmas educacionais, qual o caminho mais salvaguardado a percorrer pelos seus descendentes. Durante este percurso, insipiente no início e mais exigente com o passar do tempo, os pais, à custa de dúvidas, de decisões inseguras e da sua própria herança enquanto descendentes num outro tempo, num outro espaço e numa outra tradição, também aprendem e consolidam o seu próprio crescimento. Esta singularidade na coexistência entre o que foi a absorção educativa e o que é a capacidade de ensinar existe, de facto, um hiato que aparentemente pode não ter a importância consciente como se deveria supor. Surge, neste momento, a real suposição e reflexão do que se entende como responsabilidade parental. Essa responsabilidade não é só como se educa mas essencialmente a forma e os meios como se educa e a tomada de consciência desse ato. Considera-se que educar, em condições normais, não deve ser relegado para outras pessoas ou deixando que a criança defina, isoladamente, a sua própria construção de identidade. Ensinar significa ultrapassar os erros de uma forma positiva, permitindo, desse modo, que as crianças percebam que o pai e a mãe erram mas que essa circunstância, na sua forma mais genuína, não é uma falha mas sim uma forma de compreender e ultrapassar um determinado obstáculo. Instruir significa transferir todo um percurso de vida em que o educador transporta os recursos de como foi ensinado e num futuro próximo, de forma transgeracional, os seus filhos transmitirão os elementos aos seus descendente e assim sucessivamente. Esta perspetiva de replicação de geração em geração deve ser tomada em conta dado que torna-se vital que as desadequadas experiências anteriores não sejam repetidas no futuro. Isto significa que da mesma maneira como os seus antecedentes fizeram com eles, um pai ou uma mãe que exercem, com o indulto de educar, atrocidades físicas e psicológicas com os seus filhos, na perspetiva da criança aprender é não cometer o mesmo erro somente por medo. Realizar ações e tomar decisões muitas vezes baseadas em ocos paradigmas não considerando o fundamental interesse da criança, não é educar é subjugar. Se assim acontece, quem verdadeiramente deve ser instruído são os pais e não os filhos. Não saber educar de uma forma saudável é um erro que se perpetua. Basta para isso citar que a criança é o pai do homem.

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