Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
A terra é demasiado pequena

Os economistas tendem a dizer que somos pobres e precisamos de aumentar o consumo para estimular o crescimento económico. Acontece que hoje é relativamente consensual que se todas as pessoas do mundo consumissem tanto como os portugueses precisaríamos dos recursos de 2,3 Terras para nos sustentarmos.
Isto significa que a Terra está a ficar demasiado pequena o que, atendendo à história dos homens, pode aumentar o risco de guerras e lutas por recursos que são limitados.
Contudo, há esperança pois, apesar de todas as desgraças e guerras que constantemente nos entram pela casa a dentro, deixando a ideia que há violência em todos os sítios, os factos mostram que, tendo em atenção o total da população, os níveis de violência entre humanos nunca foram tão baixos.
A consciência da pequenez da Terra não pode deixar de colocar vários problemas e desafios à nossa política nacional e local.
A nível local faz com que única relação que pode existir entre os município de Lafões seja de cooperação estreita e generalizada e não apenas em função de interesses imediatos e pontuais.
Se os autarcas, que vierem a ser eleitos em Outubro, não compreenderem isto estarão a comprometer o futuro.
Ao nível do país as soluções isolacionistas só farão sentido se estivermos dispostos a combater de forma armada os inimigos externos.
Estas soluções podem corresponder a um impulso imediato de muitas pessoas, mas quando se começa a ter uma perceção de quais poderão ser os problemas decorrentes das opções isolacionistas no Reino Unido e dos Estados Unidos vemos que em vários países da Europa o entusiasmo por essas soluções parece estar a esmorecer.
Faz-me confusão que, com tantos pensadores e políticos, não surjam novas formas de olhar para os problemas da sociedade incluindo a economia diferentes dos dois paradigmas que dominam: de um lado o capitalismo liberal e do outro o nacionalismo protecionista.
Fico perplexo por constatar que a visão do mundo dos partidos mais à esquerda em Portugal (BE e PCP) não é profundamente diferente da que defendem os movimentos da direita mais radical. A diferença maior está na defesa de um mundo com mais justiça e outra distribuição da riqueza.
Se esquecermos essa preocupação, que não é menor, o que vemos é a mesma ideia dum mundo composto por estados com fronteiras bem demarcadas.
Os muros podem não ser uma parede de betão ou uma rede de arame farpado, mas se cada cantito, como é Portugal, quiser ter a sua própria moeda no sentido de poder influenciar o preço dos bens que saem ou entram, tiver uma fronteira guardada por soldados ou guardas armados e se para se passar de um lado para o outro precisarmos de documentos e autorizações que podem ser concedidas discricionariamente, isso equivale a um muro.
Na Europa, apesar das confusões que vão surgindo, nunca na história houve um tempo de paz tão grande como este em que vivemos e em que podemos circular com liberdade. Convém não esquecer que só Século XX a Europa foi destruída por duas guerras tremendamente mortais, mas já antes houve outras tão mortíferas como estas em séculos anteriores.
Até o António Costa formar o governo dizia-se que não havia alternativa à política do PSD, mas afinal havia, por isso quero acreditar que há-de haver uma forma de regular as trocas económicas entre as zonas mais pobres e as mais ricas sem que isso implique a construção de muros
É com imensa tristeza que vejo e ouço os partidos de esquerda em Portugal defenderem soluções defendidas também por Trump ou Le Pen.
É verdade que há nuances mas se isolarmos as ideias centrais sobre a economia e a relação do nosso país com o mundo o que vemos são as mesmas ideias.
Uns e outros em vez de nos inspirarem com a visão dum futuro novo e com mais esperança oferecem-nos o regresso a um passado idealizado e a um tempo que já não existem.
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