Manuel Silva

George Moustaki e o 25 de Abril

Dentro de poucos dias passa mais um ano (43) sobre a Revolução do 25 de Abril, também conhecida por Revolução dos Cravos.

Recentemente encontrava-me a ouvir várias canções de um autor de quem sempre gostei, o francês nascido no Egipto, George Moustaki, infelizmente já desaparecido. Entre elas, deliciei-me com “Portugal”, dedicada àquela revolução e à alegria contagiante então vivida pelo povo português, finalmente livre da ditadura, da PIDE, da Legião, dos bufos, do tempo em que “as paredes tinham ouvidos”, em que os pais diziam aos filhos que iam para as universidades, centros nevrálgicos da luta contra o regime opressor derrubado, “não te metas em política e, sobretudo, nunca assines nada, que ficas marcado”. Poucos anos antes os estudantes Daniel Teixeira e José António Ribeiro Santos, este último, militante da Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas), organismo estudantil do MRPP, haviam sido assassinados pela PIDE.

Em 25 de Abril de 1974 tinha eu 14 anos e era estudante no antigo 4º ano do ensino secundário (actual 8º ano) no liceu de S. Pedro do Sul. O que aprendi de política foi depois daquela data. Vivi intensamente aqueles tempos. Foi com nostalgia que ouvi George Moustaki cantar “os que já não criam/ vêem cumprir seu ideal/dizei-lhes que um cravo vermelho floriu em Portugal”.

Aquela canção diz também “crucificamos a Espanha”, “torturam no Chile”, “a guerra do Vietname continua esquecida”. Naquele tempo, a Espanha e o Chile estavam sujeitos a ditaduras fascistas, a segunda, militar e, no Vietname, os americanos queimavam pessoas vivas com napalm. Lembram-se da fotografia da menina vietnamita a gritar, fugindo nua e queimada no início da década de 70?

Durante os primeiros anos do novo regime, houve quem tentasse tornar Portugal no Chile da Europa e quem quisesse instaurar uma ditadura como as então existentes no leste europeu e hoje depositadas no caixote do lixo da História, como diria o seu mestre Lenine. A democracia venceu, integrámos a CEE e, posteriormente a UE, houve enormes melhorias nos planos económico e social. Portugal é um país bastante mais rico e desenvolvido, com muito melhor poder de compra para a generalidade dos cidadãos, o acesso a bens como a saúde e a educação deu um enorme salto quantitativo e qualitativo.

O 25 de Abril foi também a Revolução que abriu o caminho ao fim de ditaduras de direita na Espanha e na Grécia, bem como de ditaduras de esquerda no leste da Europa e outras paragens do mundo, ou de direita, militares ou civis, na América Latina.

Há 20 anos, era comum dizer-se estarmos “condenados à democracia”, o que fazia ranger os dentes aos inimigos da liberdade, da democracia e da justiça social.

Francis Fukuyama dizia ter acabado a História com a vitória da democracia liberal. No entanto, a democracia liberal não chegou à maioria dos países africanos e da generalidade dos países árabes, os quais continuam sujeitos a ditaduras brutais e guerras que dilaceram mais que a do Vietname e as outras daquele tempo, levando o Papa Francisco a dizer que se vive já a III guerra mundial em fascículos (creio ter sido esta a expressão que utilizou). A crucificação e a tortura a que se referia Moustaki em 1974 continuam. Os terroristas islâmicos, em parte como resposta à desastrada política americana para o mundo árabe, em parte porque odeiam a liberdade e o nosso modo de vida, praticam actos bárbaros,de guerra em todo o Ocidente. A 3ª guerra em fascículos está no mundo ocidental. Quando escrevo estão as passar constantemente notícias sobre mais um atentado na capital sueca, que causou mortos e muitos feridos.

Com o fim do comunismo e a vitória do liberalismo económico, a desregulamentação e a financeirização da economia provocaram uma grave crise económico-financeira que assolou o ocidente. Os americanos ultrapassaram-na. Na Europa, a crise continua porque a coesão e a solidariedade só existem no papel. Na prática, humilham-se os países do sul, que são vítimas de agiotagem dos países do norte. A soberania das nações praticamente acabou. Na Europa, quem governa está sujeito aos humores de Bruxelas e especialmente de Berlim, que procuram impôr uma forma única de governar, aumentando as desigualdades sociais, destruindo o essencial da classe média, tornando os ricos mais ricos e os pobres mais pobres, contrariamente à prática do capitalismo de rosto humano vigente no tempo da guerra fria.

Estas políticas criam revolta entre os cidadãos e beneficiam os populistas de direita e de esquerda. Quem diria que um inculto, desconhecedor da História, arrogante, machista, chauvinista, chegaria a presidente dos EUA, constituindo um perigo para a paz no mundo inteiro? Mandou atacar uma base aérea na Síria sem ordem da ONU, que despreza. Todos os tradicionais aliados dos States o apoiaram, incluindo o governo socialista português através do seu ministro dos Negócios Estrangeiros.

Na América há um forte movimento de contestação à administração de Donald Trump. Também em toda a Europa e no resto do mundo, os que amam a liberdade, a democracia, os direitos humanos, as heranças do espírito original da Revolução Francesa de 1789 (não do terror jacobino), da Glorious Revolution Inglesa de 1688 e da Revolução que conduziu à independência dos EUA, em 1776, devem lutar por sociedades mais justas, mais fraternas, mais equilibradas do ponto de vista social e, além do mais, por melhor distribuição da riqueza, criando condições para, como dizia o Padre António Vieira, “um peixe grande dar de comer a muitos peixes pequenos e não os comer”. Se onde Vieira falava em peixes, hoje se falar de pessoas, vê-se porque 1% da população mundial possui 99% da riqueza do planeta, restando para os outos 99% apenas 1% do PIB global.

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