Manuel Silva

Mentiras, pós-verdades e factos alternativos

Uma mentira repetida 1 000 vezes torna-se verdade.

Joseph Goebbels, ministro da propaganda do regime nazi alemão.

Ultimamente, a mentira, a meia verdade e “factos alternativos”, termo criado pela administração Trump, estão em voga. É a “estória” dos sms entre o ministro das Finanças e António Domingues, em que é notória a fuga à verdade de Mário Centeno. Foi a mentira do ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, sobre a não divulgação pela Autoridade Tributária das estatísticas sobre a passagem de 10 000 milhões de euros para offshores durante 4 anos, tendo posteriormente assumido a sua responsabilidade, com uma justificação hilariante: de que tal divulgação beneficiaria o infractor. É a invenção por Trump, os seus boys e girls de atentados que nunca existiram. São as mentiras divulgadas nas redes sociais que a imprensa publica sem confirmar a sua veracidade. Ainda recentemente um dissidente do MRPP, que se assina por Humberto Duarte, certamente um pseudónimo, publicou numa rede social a notícia da “morte” de Arnaldo Matos, que era falsa, e logo foi divulgada pela edição electrónica desse exemplo de credibilidade que é o “Correio da Manhã”, sem confirmar a sua veracidade. Arnaldo Matos logo respondeu no “Luta Popular”, parafraseando Mark Twain, dizendo que as notícias sobre a sua “morte” eram prematuras.

No seu livro “1984”, escrito em 1948, George Orwell escrevia que numa sociedade totalitária futura, presumivelmente comunista, as palavras, no que chamava “novilíngua”, significariam o seu contrário. No período áureo do nazismo, o seu ministro da propaganda, Joseph Goebbels, dizia: “uma mentira repetida 1 000 vezes torna-se verdade”.

A política é uma ciência, mas também uma arte, na qual não se pode dizer toda a verdade do que se pretende fazer, sob pena de se perderem eleições, até pelo facto de a demagogia, familiar da democracia, influenciar grande parte da comunicação social, assim contaminando os eleitores contra políticas difíceis mas boas para uma vida melhor no futuro. Note-se a dificuldade existente, a nível mundial, nas democracias, para levar a efeito reformas estruturais amigas do investimento, do emprego e da ascenção social dos mais pobres, mas que mexem com interesses instalados.

Mas o não dizer toda a verdade não significa mentir. Pensar em aumentar impostos, por exemplo, e não o afirmar, é não dizer a verdade. Afirmar que se vai diminuí-los e aumentá-los é mentir.

Os nazis entendiam que as palavras tinham o valor e interpretação que cada um lhe quisesse dar e a verdade não era objectiva, mas subjectiva. A teoria dos factos alternativos da administração Trump bebeu certamente a sua inspiração em Hitler e Goebbels.

Nos últimos 20 anos, mentiras ou “pós-verdades”, como agora se diz, não faltaram na vida política portuguesa. Quando António Guterres abandonou o governo, o défice não era de pouco mais de 1%, como era oficialmente dito, mas cerca de 4,5%. Durão Barroso prometeu um choque fiscal, baixando o IRC em 10%. No poder, aumentou os impostos. José Sócrates disse ir criar 150.000 postos de trabalho. Quando deixou o país na bancarrota, o desemprego era bem mais elevado que quando tomou posse em 2005. Aliás, se houve político a viver quase sempre na mentira foi Sócrates. Passos Coelho prometeu, na campanha que o levou ao poder, não cortar salários, pensões nem o 13º mês. Nomeado primeiro-ministro, fez exactamente o contrário.

Até aqui vimos os enganos e mentiras propalados pela extrema-direita passada e presente, bem como pelos partidos do sistema, mas há outros culpados, os cultores do relativismo moral e filosófico, situados claramente à esquerda, os quais afirmam ser tudo relativo e não haver verdades objectivas, dado a verdade também ser relativa. Que semelhança com a doutrina nazi!…

Senhoras e Senhores relativistas, quando acusam os partidos e políticos do sistema de mentirem, é bom fazerem um exame de consciência, pois estão a aplicar as vossas teorias. Já que vos considereis de esquerda, sabei que causam tanto mal a uma alternativa de esquerda como, no passado, os regimes comunistas.

Para terminar, as vossas teorias politicamente correctas sobre o multiculturalismo, o “respeito” e “aceitação das outras culturas”, são quase tão responsáveis pelo terror islâmico como a política desastrada dos americanos para o mundo árabe. Com certeza que se deve combater o nacionalismo e a xenofobia, bem como respeitar as outras culturas democráticas, respeitadoras dos direitos humanos e não discriminatórias das mulheres. Comportamentos que vão contra estes princípios civilizacionais das democracias devem ser rejeitados e punidos criminalmente.

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