Mário Pereira (Crónicas Olheirão)

Coisas destes dias

A polémica sobre a Caixa Geral de Depósitos é interessante, porque é uma boa amostra do carácter dos homens.

O governo procurou um gestor com experiência na gestão dum banco e alguém se lembrou do Dr António Domingues, que entendeu fazer uma série de exigências.

É claro que nas negociações com o Dr. António Domingues foram ditas e prometidas coisas que não se concretizaram. Se assim não fosse não seriam negociações mas apenas o governo a cumprir ordens do Dr. Domingues.

Sabendo-se hoje que ele deu a alguém os emails e mensagens de telemóvel que trocou com o Ministro das Finanças durante a negociação dessas condições, independentemente das razões que tenha, só mostra que não tem o que se espera que um banqueiro tenha.

Sobretudo confirma-se que ter experiência na gestão de bancos, mais que currículo deveria ser considerado cadastro, tantos foram os prejuízos causados por esses gestores.

Os deputados perguntaram ao Ministro das Finanças quais foram as suas conversas com Dr. Domingues ele, como qualquer outra pessoa, disse umas coisas e omitiu outras. Agora o CDS e o PSD querem criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para obrigá-lo a dizer tudo.

Por dever de coerência deveria ser um deputado que nunca tenha mentido ou omitido parte da verdade, numa qualquer situação, a fazer a primeira pergunta na comissão de inquérito. Seguramente, o silêncio seria total e profundo.

A comunicação social continua a comportar-se perante este caso do mesmo modo que trata as desgraças que enchem horas e horas nas televisões, confundindo a curiosidade do público com o interesse público.

O equilíbrio entre a verdade, a omissão e a mentira é um elemento crucial em todas as relações humanas. As relações familiares e pessoais não resistiriam se fossemos todos absolutamente honestos e a política também não.

Os pais não contam tudo aos filhos nem estes contam tudo aos pais. Aliás há estudos que mostram que dizer sempre toda a verdade seria causa de enorme sofrimento.

Há pessoas com problemas do espectro do autismo que são absolutamente honestas podendo causar enormes problemas, pois são capazes de à pergunta: “o que estás a pensar? responderem coisas como:”que tu és má como as bruxas”. O que não é muito simpático.

É essencial para que as nossas comunidades e as nossas famílias funcionem que haja algum grau de omissão da verdade e isso faz parte da vida. A contrapartida é que se as mentiras forem muitas e deliberadas as coisas também não funcionam.

Um exemplo das “verdades” dispensáveis é o último livro do ex-presidente Cavaco Silva sofre as suas reuniões com José Sócrates. Naturalmente, virá por aí a “verdade “ do ex primeiro ministro, também ela dispensável.

Estas “verdades” podem alimentar mexericos e curiosidades, mas na prática só diminuem a nossa confiança nas instituições democráticas.

Há personagens que escrevem grandes sermões sobre as omissões do Dr. Mário Centeno que me irritam particularmente.

O Expresso do dia 18 de fevereiro publica uma crónica do Dr. João Duque com o título “Ética mente” e a foto do Dr. Mário Centeno ao lado, cujo destaque diz:

“Sempre que seja expectável que a divulgação da verdade altere a ação de terceiros recomenda-se a sua divulgação”

Acontece que este sr. era diretor do ISEG, em Lisboa, quando o meu filho se matriculou num mestrado, cujas propinas custavam 5000€, porque as aulas seriam em inglês e a turma teria no máximo 25 alunos.

O facto é que, logo no primeiro semestre, as aulas tinham 50 alunos, porque juntavam duas turmas e raras foram as aulas em inglês.

Quando lhe escrevi uma carta a protestar mandou um adjunto responder-me que não me devia nenhuma justificação. Infelizmente, este é só um entre muitos artistas bem falantes.

Fevereiro 2017  Mário Pereira

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *