António Bica
CUBA, a propósito da morte de Fidel Castro em 2016 (parte 1)

Cristóvão Colombo terá provavelmente nascido na cidade italiana de Génova e depois marinheiro de barcos genoveses que compravam açúcar na Madeira. Na sequência desse comércio veio a casar com Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo, fidalgo da casa do infante D. João, que foi o primeiro capitão donatário da ilha de Porto Santo. Esse casamento possibilitou relacionamento com marinheiros ligados aos descobrimentos portugueses e saber dos ventos alísios, que do trópico de Câncer sopram regularmente no oceano Atlântico para sudoeste sobre o equador, de que os navegadores portugueses passaram pouco antes a saber.
O governo português estava então empenhado em encontrar passagem para o oriente (Índia) pelo sul de África. D. João II, então rei de Portugal, era aconselhado por geógrafos, que sabiam que Eratóstenes, que viveu no Egipto no século 2 antes de Cristo e estudou na Biblioteca de Alexandria, então o maior centro de conhecimento do mundo grego, tinha calculado, com grande precisão, o tamanho da Terra, concluindo ser o seu meridiano equivalente a cerca de 40.000 km. Fez o cálculo com base no teorema de Tales, [se duas rectas paralelas são cortadas por uma recta secante (que as atravessa), os seus ângulos opostos são iguais, sendo também iguais os ângulos alternos], e na variação, em função da latitude, da abertura dos ângulos de incidência dos raios solares sobre uma vara espetada na vertical sobre a Terra. Por isso sabia D. João II que a Terra é muito grande, sendo enorme a distância de Lisboa à Índia pelo ocidente, não se sabendo então existir o continente americano, admitindo-se ser mar desde Lisboa à Índia.
Também não se conhecia se a África dava pelo sul passagem para a Índia, ou se prolongava até ao Polo Sul, como constava de alguns mapas, incluindo do mapa de 1450 conhecido por “Mapa Mundi Catalão Estensi”.
Para saber se pelo sul da África havia passagem do oceano Atlântico para o Índico, mandou o rei D. João II Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva às partes orientais do norte de África a procurar informação sobre a existência dessa passagem, tendo tido notícia de haver passagem pelo sul da África. Isso decidiu D. João II a organizar a viagem exploratória de Bartolomeu Dias, que usou os ventos alíseos para chegar em 1488 ao extremo sul da África, fazendo larga volta pelo oeste do Atlântico com aproximação às terras do Brasil então desconhecido. Essa rota passou, a partir de então, a ser a das viagens para o oriente pelo sul de África.
Cristóvão Colombo, que seguramente não conhecia os escritos de Eratóstenes e o seu cálculo do tamanho do meridiano terrestre, entendia, com base em velhas ideias teológicas, que o tamanho da Terra correspondia a 4 vezes a distância entre o extremo ocidental da Europa e Jerusalém.
O pensamento dos que assim entendiam assentava na premissa de Cristo ser Deus e por isso ter nascido necessariamente no centro da terra emersa das águas do mar, na cidade de Belém, sendo consequentemente aí o meio da terra. Portanto o extremo oriental da Terra, que então na Europa se considerava corresponder à Índia, situava-se à mesma distância de Belém que daí ao extremo ocidental da Europa. Pelo princípio da simetria considerava-se que a Terra era metade líquida, constituída pelos oceanos, e metade sólida, as terras emersas. Assim o tamanho do meridiano da Terra correspondia, segundo essa concepção, a 4 vezes a distância de Lisboa a Belém.
Com base nestas premissas Cristóvão Colombo, sabendo dos ventos alísios e talvez informação de alguns mapas figurarem ser tudo mar entre o ocidente da Europa e a Índia, como o mapa medieval de Toscanelli, propôs-se chegar facilmente à Índia por via marítima, dirigindo-se para ocidente em vez de tentar a passagem pelo sul de África.
Colombo teve essa ideia, ou mais provavelmente foi convencido pelos frades franciscanos do convento de Santa Maria da Rábida, na Andaluzia, por ter fundamento religioso. Foi do porto de Palos de la Frontera, que Colombo partiu na sua viagem marítima para a Índia em 3 de Agosto de 1492, o que ocorreu quatro anos depois de Bartolomeu Dias ter passado o Cabo da Boa Esperança, certificando ser possível a passagem para a Índia por aí.
Os frades de La Rábida, invocando a razão religiosa de Belém, onde Cristo nasceu não poder deixar de ser o centro do mundo, convenceram os Reis Católicos de Espanha ser mais fácil chegar à Índia navegando para ocidente do que seguir a rota do sul de África. Convencidos disso e cobiçosos do domínio do comércio da Índia decidiram-se a financiar a expedição, dando o título da almirante das Índias a Colombo, se chegasse à Índia, como vieram a dar.
Mas o tamanho do meridiano da Terra é muito maior do que pensavam os frades da Rábida. Segundo as medidas deles, o seu tamanho seria de cerca de 20.000 km, sendo de facto de 40.000 km. Colombo admitiu que saindo de Palos de la Frontera chegaria aos ventos alíseos um pouco a sul das Ilhas Canárias, que sopram constantes para sudoeste, e em pouco tempo chegaria à Índia.
De facto Colombo, por essa rota, depois de ter percorrido cerca de 6.000Km, chegou a pequena ilha das Antilhas 3 meses depois da partida e pouco depois, em 28 de Outubro, aportou a Cuba, a maior das Antilhas, tendo antes dominado a custo a vontade dos marinheiros de regressar a Espanha por considerarem a aventura insensata para as provisões que restavam de água doce e comida. Teve sorte ter encontrado então terra, que, para chegar à Índia, segundo os cálculos dos frades, faltaria percorrer só mais 4.000 km. De facto, de acordo com o real tamanho da Terra, faltavam 14.000 Km para chegar ao extremo oriental da Ásia. As provisões de água e comida não davam para tão larga viagem. Se não morresse em consequência de tempestades, morreriam de fome e sede.
Colombo convenceu-se que chegara à Índia e por isso chamou aos habitantes locais “índios”. Morreu em 1506 convencido de que chegara à Índia por ocidente, apesar de das terras a que chegara nunca terem vindo para a Europa as cobiçadas mercadorias da Ásia oriental: a pimenta, o cravinho, a cânfora, a noz moscada, a seda, a porcelana e outras.
Cuba foi pouco depois esvaziada do povo nativo pelos espanhóis. Esse povo praticava agricultura incipiente. Por isso tinha valores culturais de não interferência na natureza. Por essa razão não se adaptavam às práticas agrícolas e pecuárias pretendidas pelos espanhóis, tendo sido dizimados até à extinção. Substituíram-nos por escravos levados de África, como os ingleses fizeram nas colónias da América do Norte e os portugueses no Brasil. As explorações agrícolas começaram a produzir carne, couro e farinha para as expedições ao continente americano, depois, para exportação, tabaco e plantas produtoras de pigmentos corantes para tecidos. As exportações e importações só podiam ser feitas através da Espanha. No fim do século 18 e princípio do século 19, com a revolução francesa e a guerra da independência das colónias inglesas, a população nascida em Cuba e nos outros territórios espanhóis das Américas começou a organizar-se para se tornar independente de Espanha.
Na sequência desses movimentos, muitos desses territórios tornaram-se países independentes.
A Espanha resistiu por largo tempo à reivindicação de independência por Cuba. Os EUA começaram entretanto a cobiçar o controlo político de Cuba. Para pressionar a Espanha a deixar Cuba mandaram navios para as águas da ilha e estimularam a entrada de americanos na ilha para combater ao lado dos insurgentes cubanos contra Espanha. Um desses navios americanos, o couraçado Maine, sofreu explosão em Fevereiro de 1898. Com o pretexto de que haviam sido mergulhadores espanhóis que o sabotaram, os EUA declararam guerra a Espanha, obrigaram-na a renunciar à colónia de Cuba, que ocuparam, tendo também ocupado as Filipinas, até então colónia espanhola, que veio a ser colónia americana até ao fim da Segunda Grande Guerra.
Os EUA impuseram a Cuba a nomeação de “Convenção” que em 1901 redigiu Constituição para Cuba com sistema político presidencial segundo o modelo americano. O Congresso dos EUA impôs a Cuba o direito de intervenção no país, com o pretexto de assegurar a ordem, e também a cedência de bases navais.
Em 1906 os EUA voltaram a ocupar a ilha até 1912 com o pretexto de repor a ordem. Fizeram em 1917 nova ocupação e impuseram a paridade da moeda de Cuba com a dos EUA para melhor dominarem a economia cubana. Depois da primeira guerra mundial a influência dos EUA na ilha levou à ditadura de Gerardo Machado, entre 1925 e 1933, e foi depois derrubado pelo protegido dos EUA, Fulgêncio Baptista.
Com Fulgêncio Baptista no poder os EUA renunciaram ao direito de intervenção política em Cuba, em 1934. Seguiram-se outros presidentes cubanos, tendo Fulgêncio Baptista, protegido dos EUA, retomado o poder em 1952. Apesar de exercer o poder em Cuba arbitrariamente nunca os americanos o chamaram de ditador, como sempre fizeram e fazem em relação aqueles que governam os seus países de acordo com os interesses dos EUA, como, entre muitos, Sadam enquanto declarou e fez guerra contra o Irão na década de 1980 com uso de armas químicas e a morte de cerca de um milhão de pessoas, Noriega da Guatemala enquanto não afrontou os interesses americanos no Canal do Panamá, Pol Pot no Camboja entre 1975 e 1979, Chiang Kai Sheq que governou a Formosa como senhor dela desde 1949 até à sua morte em 1975, Salazar em Portugal, Franco na Espanha e muitos outros.
Para os EUA ditadores são os que governam os seus países sem se submeterem aos interesses americanos. E, como as notícias transmitidas pelos grandes meios de comunicação em muitos países, incluindo o nosso, são as que têm origem americana, quem as ouve sem se interrogar se serão ou não verdade, tem-nas, por muito repetidas, como verdadeiras.
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