António Gouveia
A Política importa mas é a Economia que aporta

Soares deixou-nos, fica a saudade e uma boa memória, para o bem e para o mal a ele se deve a liberdade tal como a conhecemos hoje, isto é, a democracia, o povo a pensar e decidir o seu futuro. Se nele não pensa ou não o traça melhor, é por não valorizar a política, o mesmo é dizer, não se empenha com o seu voto e espírito de cidadania. Infelizmente não estamos sós nesta abordagem da política e ideologia, enquanto conceção e ideia do mundo e da vida, como devemos implicar e aplicar este nosso poder enquanto de cidadãos, como podemos organizar melhor a sociedade de que fazemos parte. António Salazar foi a figura política mais importante do Estado Novo, Mário Soares é a mais importante pós-revolução. Adversários figadais, ambos morreram no hospital da Cruz Vermelha, ambos tiveram funerais com honras de Estado. Está bem assim, enquanto políticos deram o sue melhor, a conceção da vida e do mundo é que foi diferente em cada um.
Por falar em Salazar e no Estado Novo, nunca em democracia e após abril, Portugal atingiu um défice orçamental tão baixo, 2,3 %; ao contrário, a dívida pública atual, poderosa e violenta, continua a pairar sobre as nossas cabeças qual espada de Dâmocles, é o somatório dos vários défices acumulados, cerca de 130 % do PIB, brutalidade anormal atento o risco da taxa de juro implícita (amortecida pelo BCE, a rever em baixa brevemente e a piorar) e do spread, a margem a acrescentar indexada ao risco inerente da debilitada economia, em comparação com outros países europeus (França, Itália e Espanha). Como sempre acontece nos bancos são os pequenos devedores a presa fácil. E Portugal é, comparativamente, um peqeuno devedor e sem margem de manobra sujeito aos mercados, os investidores e fundos, sobretudo internacionais que ninguém conhece, só o tremendamente bem elaborado software dos PC’s de salas de câmbios de entradas e saídas de ordens diárias. Este resultado do Governo de António Costa é relevante, cumpriu a regra comunitária de não ir além 3 %. Só falta reduzir para metade o endividamento, isto é, 60 %, mas isso é bem mais difícil, alguém terá de desatar este nó górdio.
A questão do aumento do salário mínimo, absolutamente primordial e necessária (está hoje abaixo do que Palma Carlos e Vasco Gonçalves aumentaram após a revolução, € 539 e € 557), tem dado pano para mangas por causa da TSU (Taxa Social Única). António Costa, desta vez e aqui, não foi prudente, esqueceu-se dos compagnon de route, sobretudo esqueceu-se de que é o Parlamento que decide, isto é, nele se concertam estratégias, consensos e congregam maiorias. Passos Coelho também se esqueceu, continua ressabido e a pensar que foi atraiçoado, quem ganhava as legislativas é que devia governar, mas não é assim, a CRP é clara no art.º 187.º, o PR atende aos resultados eleitorais, isto é, às maiorias conseguidas (ou a conseguir) na AR e não aos vencedores diretos em coligação com percentagem insuficiente para poder governar. São distrações que em política se pagam caro e nos deixam dúvidas sobre a sorte da atual maioria e, por tabela, do país e a sorte do povo, nós mesmos.
Trump tomou posse. Escrevi aqui já este mês adivinhar-se um futuro bem perigoso. Mas não vale a pena esconder a cabeça na areia, a democracia é o que é, com problemas, não é um sistema perfeito, só o menos mau (por enquanto) dos regimes que conhecemos ou já experimentámos. Percebemos agora (temos de perceber) -, e isso é bom – que Donald Trump não esconde as cartas dom jogo, trata a solo dos negócios americanos nem que tenha de levar ao tapete os seus adversários mais diretos (China, Europa e outros) ou aliar-se ao diabo, os inimigos de ontem (Rússia). O futuro será preocupante mas já não teremos a desculpa de dizer que ninguém nos avisou, por isso vale a pena perceber outro aviso feito agora em Davos pelo presidente do Fórum Económico Internacional, o europeu alemão e radicado na Suíça, Klaus Schwab e fazermos o nosso trabalho: não deixar para trás a habilidade, bem necessária para enfrentar a tecnologia (é ela que leva o mundo global às costas, qual Atlas) e um outro aviso bem importante quando disse que em Silicon Valley o que não é proibido, é permitido, já na Europa, o que não é explicitamente proibido, é permitido. O advérbio faz toda a diferença, estamos duplamente avisados, não há desculpas, a política importa, mas é a economia que aporta (importa e exporta) comercialmente e faz a diferença, sempre assim foi.
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