Mário Pereira

Os pobres pagam melhor (Crónicas do Olheirão)

Calhou ouvir, no passado dia 22 de dezembro, parte do debate quinzenal no Parlamento. Do que ouvi, chamou-me à atenção uma intervenção do primeiro-ministro em que respondendo a uma questão do Bloco de Esquerda lamentava que a banca continuasse a privilegiar os empréstimos ao consumo e para compra de casas em vez de emprestar dinheiro às empresas para investimentos produtivos.

Pergunte-se aos bancos quem são os caloteiros que levaram alguns deles à falência e deixaram outros de rastos e logo se verá quais são as verdadeiras razões dos bancos.

Os empréstimos ao consumo e para compra de casa são empréstimos de baixo montante a pessoas pobres e remediados e é sabido que estas pessoas gostam de honrar os seus compromissos, o que faz com que a taxa de cumprimento dos pequenos devedores seja bem maior do que taxa de cumprimento dos grandes.

Se os nossos empresários, mais ou menos ricos, tivessem o mesmo grau de empenho que têm os pobres em pagar os seus empréstimos os bancos emprestar-lhe-iam dinheiro sem tanta cerimónia.

O que temos visto é que os bancos foram arruinados pelos ricos ou por quem conseguiu fazer-se passar por tal.

Os bancos sabem que há mais probabilidade do operário cumprir com o crédito do carro velho que comprou para poder ir trabalhar do que do patrão dele pagar o crédito para comprar o seu “carrão”.

As grandes empresas conhecem bem a preocupação dos pobres em honrar os seus compromissos e daí recorrerem a práticas comerciais que explorarem o desconhecimento das pessoas mais vulneráveis e a desigualdade de informação entre as partes.

Por razões profissionais conheço pessoas muitíssimo pobres, algumas sem qualquer rendimento fixo, que têm contratos com companhias de telecomunicações ou empréstimos ao consumo absurdos feitos por telefone.

Algumas pessoas fizeram, sem saber que o estavam a fazer, contratos por telefone não fazendo ideia dos montantes dos encargos que teriam de pagar.

Estas pessoas em regra pedem ajuda, quando recebem cartas das operadoras de telecomunicações ou das empresas de crédito, assinadas por advogados em condições muito duvidosas, a dizer que devem centenas ou mesmo milhares de euros e com ameaças de processos, porque não querem deixar de honrar os seus compromissos.

A lei que permite fazer contratos por telefone foi feita para facilitar a vida das empresas mas tem consequências dramáticas para as pessoas mais frágeis, incluindo muitos idosos.

Há pessoas que não sabem ler a quem foram vendidos serviços que elas não podem usar e pessoas pobres a quem são vendidos pacotes de internet suficientes para uma média empresa.

De facto os bancos e estas empresas atuam sem ética e abusando do seu poder e os  únicos que conseguem fazer-lhe frente são os  grandes consumidores igualmente sem ética e que não têm vergonha de não pagar.

Entre muitas pessoas pobres com dívidas às empresas de telecomunicações e aos bancos só ouvi uma dizer o que disseram muitos dos grandes devedores aos bancos: “eles se quiserem que venham cá buscar o dinheiro…”

Caro António Costa os bancos cortam-se a emprestar dinheiro aos empresários, porque estão escaldados e porque além dos que são efetivamente empresários e honestos há muitos figurões que se dedicam sobretudo a explorar os seus trabalhadores, a enganar os seus clientes e fornecedores e a aldrabar os bancos.

Entre nós, nos últimos anos, não faltaram exemplos destes figurões e no fim quem acaba por pagar são os pobres e os remediados. • Dezembro 2016 – Mário Pereira

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