Rui Chã Madeira
CÃO DE LOIÇA
O refluxo da sociedade de consumo
Terminada a época natalícia e principiado o novo ano, torna-se imperativo realizar os sufocantes cálculos e perceber até que ponto o desfalque nas contas bancárias condiciona os próximos meses. Porventura cometeram-se excessos de vária ordem até porque os cartões de crédito e de débito têm a capacidade de ludibriar os incautos com a ilusão de produzirem notas. No decorrer do pesaroso e persistente mês de janeiro, muitas pessoas com uma subtil sensação de terem sido propositadamente enganadas, culpando exclusivamente o espírito da época, são forçadas a rogar aos seus familiares e amigos pequenos empréstimos para poderem pagar as despesas correntes. Torna-se, no entanto, perentório defender o referido espírito, cuja sensibilidade cristã, pagã ou de outro qualquer credo, no que diz respeito ao verdadeiro sentido da humilde e mundana confraternização, pouco ou nada interfere nesta narrativa. O verdadeiro alvo da fúria dos distraídos foram os gastos desmesurados em prendas para familiares, cônjuges, namorados, amigos, cão e gato. Ainda não satisfeitos, os lesados, com o objetivo de sentirem um certo conforto desculpabilizante, elaboram uma espécie de retórica contra o estado do país e contra os preços exorbitantes das oferendas. A única conclusão que se pode revindicar é que sem a mais pequena dúvida foram atraiçoados. Responsáveis identificados, alma perdoada.
Concluída esta pequena observação considero importante rematar este artigo com algo mais corriqueiro, de pouca importância mas que decerto vai aliviar o pesaroso leitor. A culpa não é nossa. A culpa é da televisão, das redes sociais, do motor de busca da internet e dos folhetos informativos, que definindo as modas e as tendências, impelem-nos a comprar. Nós não temos qualquer culpa em inspirar, constantemente, uma espécie de substância de controlo mental com origem nas rápidas e persistentes imagens, cores e mensagens que em todo o lado proliferam. Podia-se chamar a isso a essência da sociedade de consumo, meticulosamente articulada pelo poder mercantil que mantem a aldeia global impregnada de desejos que têm de ser rapidamente satisfeitos. De forma ainda mais enfadonha, também posso referir as rogativas situacionistas que expõem a espetacularização da informação em que o natural e o autêntico tornam-se ilusão. Em que propositadamente toda uma indústria controla e manipula o sistema social, diluindo o consciente em inconsciente transformando o ser em o ter e em continuidade o ter em o parecer.
Concluímos, portanto, que para o ano, com certeza absoluta, vai ser tudo feito de forma diferente ao ponto das altruístas prendas do amigo secreto passarem de trinta euros para uns menos dispendiosos vinte e nove euros. Sem exceção, regra feita, consciência tranquila.
Comentários recentes