Manuel Silva

José Augusto Silva Marques

Faleceu no passado dia de Natal, com 78 anos de idade, o ex-político José Augusto Silva Marques, natural de Porto de Mós. Silva Marques iniciou a sua actividade política na segunda metade da década de 50 do século XX, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde era estudante. Em 1958 adere ao Partido Comunista Português (PCP), do qual viria a ser expulso em 1970. Oito destes doze anos, passou-os na clandestinidade.

Silva Marques publicou em 1976 um livro sobre a sua passagem e a vida interna do PCP na clandestinidade, intitulado “Relatos da Clandestinidade – o PCP visto por dentro”.

Ali afirma ter batido à porta do PCP por ser aí que toda a gente, especialmente os jovens da sua geração, que queria combater a ditadura se dirigia. No final dos anos 50/princípios dos anos 60 fez parte da direcção da Associação Académica de Coimbra.

Pouco após a conclusão do curso de Direito, Silva Marques torna-se funcionário do PCP. Em 1962 é preso pela PIDE. Agredido e sujeito à tortura da estátua, não trai como outros, vindo a fugir poucos meses após a prisão da cadeia. Segue-se a clandestinidade.

Dentro do PCP, sempre pensou pela sua cabeça e discordou de muitas decisões da direcção. Aquando do conflito sino-soviético, não ficou do lado de Moscovo como Cunhal e os outros dirigentes. Entendia que Krutchov e Mao tinham algumas posições certas e outras erradas.

No ano de 1965 participa no VI Congresso do PCP em Kiev. Aí conhece Álvaro Cunhal, o qual lhe disse ter sido nomeado delegado ao congresso por ser um quadro de confiança, com provas dadas e… para lhe serem limadas algumas arestas do cérebro. Se dúvidas já tinha, aí aumentaram. Então o PC lutava pela liberdade de expressão e o seu secretário-geral queria impôr formas únicas de pensamento? Sobre a URSS, diz no livro ser visível a melhoria da vida do povo e a obtenção de muitos direitos sociais após a revolução de 1917. No entanto, observava-se a existência de pobreza, a começar no vestuário, enquanto se viam homens e senhoras – do aparelho do partido – com roupas caríssimas. Eram todos iguais, mas alguns eram mais iguais que outros. Também não gostou de ver os dirigentes comunistas portugueses exilados naquele país levarem uma vida muito boa comparada com os sacrifícios que os funcionários do partido passavam cá.

Para além de vir um bocado decepcionado com o que vira no país dos sovietes, fica chocado por o “Militante”, órgão teórico do PC, afirmar ter sido realizado o congresso ”nas duras condições de clandestinidade no interior de Portugal”. Escreveu várias cartas àquele jornal, repondo a verdade sobre o local da realização do congresso, que nunca foram publicadas.

Passou a ter vários embates com os seus camaradas. No final de 1969, escreve uma carta aberta aos militantes, assumindo as suas divergências. Foi a gota de água que fez transbordar o copo. O Comité Central decide expulsá-lo, sendo-lhe esta decisão comunicada em Viseu, por Carlos Brito, em Março de 1970.

Silva Marques deixa de ter condições para permanecer em Portugal. Parte, a salto, para França, onde trabalha como operário e estuda, fazendo o curso de Sociologia na Sorbonne.

Em Paris, contacta com exilados portugueses de extrema-esquerda, na sua maioria também dissidentes do PC, e activistas do Maio de 1968. Tem uma passagem fugaz pelo maoismo, militando na organização “O Comunista”.

Entretanto, em consequência das suas reflexões, Silva Marques corta com o maoismo, o estalinismo e o próprio leninismo, permanecendo apenas simpatizante do marxismo. Funda e dirige a revista “Cadernos”, que se pauta pela defesa de um radicalismo político inserido na democracia parlamentar.

Quando regressa do exílio, após o 25 de Abril, colabora e mais tarde adere ao PPD, actual PSD. Foi presidente da C.M. de Porto de Mós, governador civil de Leiria, deputado à AR, líder parlamentar do PSD, membro de várias das suas Comissões Políticas Nacionais e, durante muitos anos, presidente da distrital de Leiria.

Segundo várias pessoas ligadas ao PSD, como Pacheco Pereira, quando viu o seu partido guinar à direita, após a constituição falhada da Alternativa Democrática (AD) pela dupla Marcelo/Portas, afastou-se da política, embora continuasse a interessar-se pela mesma.

Conheci José Augusto Silva Marques. Falei longamente com ele num encontro de autarcas em Viseu, no início dos anos 90, quando fazia parte da Assembleia Municipal de S. Pedro do Sul. Era um verdadeiro social-democrata. Sempre o vi como uma pessoa da ala esquerda do partido. Que descanse em paz.

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