Mário Pereira

Trump e os anti políticos (Crónicas do Olheirão)

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O discurso contra a política e os políticos continua a crescer, atingindo um ponto em que coloca em causa a possibilidade de conseguirmos soluções de governo razoáveis.

Haverá muitas razões e uma delas não deixará de ser o sentimento de que os políticos defendem mais os seus interesses do que os seus ideais.

O presidente Obama, numa entrevista publicada no jornal Expresso de sábado passado, conta que teve muitas das dificuldades que com algumas suas políticas, como a criação dum sistema de saúde universal, pois embora vários legisladores lhe dissessem, em privado, que concordavam com essa política não podiam apoiá-lo, porque no seu estado essa política não era popular e eles tinham medo de perderem a próxima eleição.

Ele acrescenta que, felizmente houve vários congressistas que votaram a favor mesmo sabendo que isso lhes poderia custar o lugar.

Nas nossas democracias os políticos têm vindo a esquecer que além de fazer uma boa administração também é sua função criar esperança e motivar as pessoas para projetos comuns.

Os populistas aproveitam este esquecimento e ganham força quando conseguem que as pessoas aderem a ideias ou propostas, que, regra geral, não são a favor de nada mas contra alguém que se considera inimigo ou perigoso.

Também os populistas têm cenas engraçadas. Acabei de ver na televisão os serviços secretos a retirarem à pressa Trump dum palco porque terão percebido que alguém na sala tinha uma arma. Sendo ele defensor da liberdade do uso de armas deveria ter mostrado o seu contentamento e não sair.

Este é apenas um pequeno exemplo da coerência dos populistas.

A melhor crítica aos que pensam que a solução ideal é entregar o poder a um não político vi-a num dos talk shows americanos transmitidos pela Sic Radical onde os apresentadores e entrevistados não se inibem de fazer humor com os candidatos às eleições.

Recentemente, num desses programas apareceu um comediante a fazer uma rábula muito crítica de todo o discurso de Trump, dizendo entre outras coisas que fica espantado com a facilidade e a felicidade com que cerca de 50% dos americanos se dispõem a entregar o poder a uma pessoa que confessa não saber nada de política e que ainda por cima faz alarde disso.

Ela dizia não perceber que as pessoas não tenham medo de entregar o governo dum país como os Estados Unidos a uma pessoa que diz não ser e não querer ser político e perguntava o que fariam essas pessoas se estando dentro de um avião pronto a descolar o piloto dissesse:

– Fala o comandante John. Nunca quis ser piloto e não tenho experiência com estes aviões mas vamos fazer uma ótima viagem. Obrigado pela Vossa preferência.

Seguramente haveria um motim dentro do avião.

As reações humanas são muito diferentes quando está em risco a nossa pessoa em concreto ou quando estão em causa situações coletivas.

Temos sempre a esperança de que as coisas muito más não nos atinjam ou, o que é ainda pior, acabem por atingir outras pessoas que não conhecemos mas nos dizem ser nossos inimigos.

A eleição de um não político para presidente dos Estados Unidos aumentará, claramente, o risco de guerras em larga escala, porque ele vai governar com base nas reações emocionais dele próprio e da população.

Como, certamente, vai ter problemas em levar a cabo políticas que melhorem a vida das pessoas e em exterminar os inimigos as guerras tornam-se uma escapatória.

O exemplo mais próximo é o de Putin que tendo dificuldades internas na Rússia resolveu ocupar a Crimeia e criar uma enorme confusão com a Ucrânia.

A democracia como a conhecemos tem menos riscos de nos conduzir  guerras em grande escala e outros conflitos e uma das razões é o medo dos políticos perderem as eleições.

Este medo, como tudo, nas doses certas pode ser uma proteção contra grandes perigos.

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