António da Rocha Sargento
Freguesia de Figueiredo de Alva em defesa da floresta
Freguesia de Figueiredo de Alva em defesa da floresta
Dada a sua situação geográfica no extremo norte, a freguesia de Figueiredo de Alva está para a sede do seu concelho exactamente como este está em relação ao litoral desenvolvido, sofrendo assim de um duplo fenómeno de interioridade. Daí o seu atraso atávico em relação a outras freguesias mais bem localizadas geograficamente.
Claro que o poder político não é imune a esta situação e todos nós sabemos a quanta influência têm os lóbis políticos nos órgãos decisores, pois as filiações partidárias nesta freguesia não me consta que sejam de grande monta…
Por isso não admira que os movimentos independentes assumam cada vez mais relevância.
Em tempos idos a principal ocupação e fonte de rendimento das nossas gentes provinha da actividade resinosa, dado que possuía (e hoje volta a possuir) uma área florestal considerável. Esta actividade foi também muito incrementada pelos resineiros de Leiria que, inclusivamente, instalaram aqui uma fábrica de produtos resinosos (D.R.C.), com uma actividade considerável para a época, onde se produzia o pez loiro e a aguarrás, etc e dava emprego directo a uma dezena de operários e sazonalmente a muitos mais, pois a sua laboração chegou a ser contínua, para além dos empregos indirectos. Hoje, infelizmente, restam as instalações num lamentável estado de degradação. Com os incêndios da década de oitenta, esta actividade desapareceu quase de noite para o dia e esta freguesia assistiu de uma forma dramática ao definhar de uma actividade que era a base da sua ocupação e sustento.
O espírito de sobrevivência dos Figueiredenses levou-os dramaticamente a outras paragens mais longínquas – à emigração.
Hoje, graças à abnegação e coragem destas gentes e, evidentemente, à acção muito meritória dos bombeiros, a nossa floresta renasceu das cinzas e está linda e é uma imensa mancha verde de pinheiro bravo e é com muita esperança que volta a ser, não com a pujança de outrora, como é evidente, a ocupação e o sustento de algumas famílias e um bom complemente para os orçamentos familiares.
Sou um pequeno produtor florestal com cerca de 10 ha e terei quanto muito ½ ha de área de eucalipto, e nunca sacrifiquei um pinheiro para plantar eucaliptos. Vejo com tristeza a plantação desta espécie de uma forma completamente desordenada, muitas vezes sem respeitar os cursos de água e áreas cultivadas. O descontrolo é total e agora facilitado com as alterações à lei pelo anterior governo que regulava e restringia a sua plantação.
Não obstante esta tendência, a área de pinheiro bravo é imensa e de longe predominante. Acredito que será ainda por muitos anos. Assiste-se com muita esperança ao retomar da actividade resinosa, tornando assim a floresta mais humanizada e cuidada. Por outro lado a limpeza e o corte de madeira de pinho já vai dando trabalho a algumas pessoas, e o produto da resina e da venda da madeira já contribui para o orçamento de muitas famílias.
Neste quadro optimista que acabo de descrever nem tudo são rosas. Estas gentes no verão vivem, como se costuma dizer com o coração nas mãos, por causa dos incêndios. Este povo vive a floresta e parte para a acção com uma vontade férrea para a defender. Exemplificando: O Sr. Amadeu Pinto, o Sr João Cardão e o Sr. Miguel Almeida, compraram, cada um, uma cisterna e pagaram-nas do seu bolso, de 3500 litros cada, e na época dos incêndios estão sempre cheias em lugares estratégicos, sempre prontas a arrancar para o que der e vier e, no recente incêndio que estava bem longe dos limites desta freguesia, eles arrancaram acompanhados de outros tractores pejados de outros corajosos, equipados com motosserras e foram em auxílio das gentes das povoações de S. Martinho e Sul e combateram o incêndio com abnegação ao lado dos bombeiros . Isto meus senhores não é retórica, nem blá…, blá… das cúpulas. Isto é trabalho, é coragem, amor à floresta, é solidariedade, é saber fazer sem qualquer outro interesse que não seja defender a floresta. O Senhor Presidente da Câmara assistiu in loco, e viveu a azáfama e angustia desta gente, incentivou e reconheceu-lhes a coragem e esforço.
Não foi por acaso que aqui há uns anos atrás a SIC e TVI se deslocaram a esta freguesia e fizeram uma reportagem sobre os incêndios e entrevistaram o presidente da junta da altura (Amadeu Pinto), onde enalteciam a coragem e resiliência deste povo. E não é igualmente por acaso que o actual presidente da junta (Victor Loureiro) foi parar ao hospital de Viseu, onde esteve internados uns dias, em consequência do esforço e inalação do fumo no combate a este fogo, pois tinha sido objecto de uma intervenção cirúrgica recentemente. Felizmente já está em casa e sem consequências de maior. Foi pena que a comunicação social, sempre ávida de notícias, nomeadamente as televisões fizessem tábua rasa destes pequeninos pormenores. É curioso, não é?
Ontem em conversa com o João Cardão, sugeri a hipótese de se organizar um peditório pela população para angariar fundos para ajudar a pagar o gasóleo e a gasolina consumido pelos tractores e motosserras, o que recusou liminarmente. Queria apenas que os responsáveis máximos dos bombeiros lhe dessem umas mangueiras adequadas, pois as suas, do Amadeu e Miguel ficaram danificadas por não serem adequadas para o efeito. Disse-me também que foi 14 vezes com a cisterna à povoação de Solgos encher a cisterna para abastecer as demais, bem como os bombeiros salvo erro de Mangualde e Penalva do Castelo e que não lhes deixou faltar água.
Que exemplo! Que gente é esta tão generosa, tão solidária que se contentava com a oferta de umas simples mangueiras adequadas, para combater futuros incêndios? Faz-me lembrar aquele ditado popular “o pobre até no pedir é parco”.
Fica aqui o pedido. Pode ser que alguém nos ouça.
Figueiredo de Alva, 26 de Agosto de 2016
(António da Rocha Sargento)
Comentários recentes