Manuel Silva
O lobista do que está a dar

Durão Barroso, em consequência da sua contratação para a Goldman Sachs, vai deixar de ser recebido na Comissão Europeia com as honras de antigo Presidente, mas apenas como lobista da empresa onde trabalha.
Quando Durão Barroso liderava o PSD, os “opinion makers” consideravam-no fraco do ponto de vista ideológico. Ele nunca chegou a professar qualquer ideologia, sempre foi hábil no encosto ao “que está a dar”, senão vejamos o seu percurso desde bem jovem.
Segundo afirma, aos 13 anos distribuía propaganda da CDE (Comissão Democrática Eleitoral), dirigida pelo PCP, aquando da farsa eleitoral orquestrada pela União Nacional no ano de 1969.
Entra na faculdade de Direito da Universidade de Lisboa em 1973. A UEC (União dos Estudantes Comunistas), organização estudantil do PCP, controlava a Associação de Estudantes (AE) da escola. O MRPP, através da Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas (FEML), já ali tinha forte implantação. Um ano antes, o seu militante e estudante de Direito José António Ribeiro Santos havia sido assassinado pela PIDE no ISEG, actual ISE.
Agora, mais politizado, Barroso era o estudante de esquerda não comprometido com partidos ou ideologias.
– Após o 25 de Abril, apercebendo-se que a FEML iria conquistar a AE de Direito, adere à mesma, integrando a lista vencedora das eleições. Como tinha um discurso muito eloquente, Durão Barroso passa a ser o líder associativo da faculdade, vindo a pertencer ao Comité Central da organização estudantil do MRPP, então liderada pelo estudante de Economia, Carlos Coelho, hoje gestor de um banco estrangeiro.
Sob a direcção de Barroso foram saneados uma série de professores e alunos. Em 1975, não havia um único doutorado a dar aulas na Faculdade de Direito de Lisboa (FDL).
Um dia, Durão Barroso decide, à frente de outros camaradas, levar móveis da reitoria da FDL para a sede nacional do MRPP. O secretário-geral deste partido, Arnaldo Matos, deu-lhes um grande raspanete e obrigou-os a voltar com os móveis para o local de procedência. Mais tarde, Barroso quis fazer crer que aquela ideia não tinha sido sua, mas do Arnaldo…
No ano de 1976, a Juventude Socialista (JS) derrotou o MRPP/FEML nas eleições para a AE da FDL por 8 votos de diferença. Após ter perdido o poder que detinha e analisar o caminho político seguido pelo país após o 25 de Novembro de 1975, Durão Barroso abandonou e foi expulso da FEML ainda em 1976. Os seus ex-camaradas apelidaram-no de “oportunista de duas caras”. O futuro veio dar-lhes razão.
Durante vários anos, Barroso não se envolve na política. Adere ao PSD em 1980, quando Sá Carneiro era primeiro-ministro e a Aliança Democrática (AD) dispunha de maioria parlamentar. Mais uma vez se encosta ao que “está a dar”.
No período do governo do bloco central, Marcelo Rebelo de Sousa cria a “Nova Esperança” como força de oposição interna ao então líder social-democrata Mota Pinto e à solução governativa encontrada por imposição do FMI, após o país chegar perto da bancarrota. Juntou à sua volta vários jovens, os quais pensariam chegar a ministros, caso Marcelo ganhasse o partido e o poder político. Entre estes jovens estava Durão Barroso.
No célebre congresso do PSD, na Figueira da Foz, do qual saiu líder Cavaco Silva, a “Nova Esperança”, que entretanto se dissolve, foi fundamental para a vitória do homem de Boliqueime. Durante o cavaquismo, Durão Barroso foi secretário de Estado, ministro e um dos principais dirigentes do PSD.
No congresso laranja anterior às legislativas de 1995 que conduziram António Guterres ao governo, Cavaco Silva não se candidatou à liderança, sabendo já não ter boa imagem junto da população. Durão Barroso avançou, tendo sido derrotado por Fernando Nogueira.
Após a derrota do PSD naquelas legislativas e de Cavaco Silva nas presidenciais que se lhe seguiram, Fernando Nogueira abandona a política. Todo o PSD se virou para Durão Barroso, mas este, vendo estar Guterres e o PS para dar e durar, não aceita liderar a oposição, acabando por apoiar o seu antigo mestre, Marcelo, para a presidência do PSD.
Depois de alguns anos a trabalhar nos EUA, Barroso regressa a Portugal, retoma o seu lugar de deputado à AR e passa a liderar a oposição interna a Marcelo. No entanto, não avança contra o mesmo em congresso, pois a sua vontade era que Marcelo disputasse e perdesse as legislativas de 1999 para o novo secretário-geral da ONU. Seguir-se-ia a sua vez num ciclo previsivelmente desfavorável ao então primeiro-ministro.
A poucos meses daquelas eleições, falha a Alternativa Democrática (AD) que Marcelo Rebelo de Sousa orquestrara com Paulo Portas. Marcelo demite-se da liderança do PSD, para a qual Barroso é obrigado a avançar.
Como era previsível, António Guterres e o PS vencem as eleições, mas sem maioria. Passados dois anos, o guterrismo desintegra-se e Barroso é eleito primeiro-ministro.
Após a chegada ao poder, o choque fiscal e outras promessas do novo primeiro-ministro são abandonadas. Barroso anunciou uma série de reformas que não passaram do papel. Após uma série de medidas anti-populares, o défice ficou abaixo dos 3% do PIB à custa de medidas extraordinárias. Sem as mesmas o défice ultrapassaria os 5%, ou seja, seria superior ao herdado do governo socialista. Durão mostrava ser um “bleuff”.
A meio do mandato decorreram eleições para o Parlamento Europeu. O PSD e o CDS, coligados, obtiveram uma enorme derrota. Durão abandona o barco e, movendo influências e conhecimentos, é escolhido para presidente da Comissão Europeia. Nestas funções, além de um “bleuff”, foi um desastre. Foi o pior líder da CE desde há dezenas de anos. Portugal nada ganhou em ter um seu cidadão naquela posição, pois não passou de um servidor de Merkel, prejudicando os países do “ajustamento”, incluindo o nosso.
Depois do oportunismo e do fracasso que foi a sua passagem pelo poder, Durão Barroso foi trabalhar para a Goldman Sachs, grande responsável pela crise mundial, especialmente na Europa. Ajudou a Grécia a maquilhar as suas contas, aparentando ter enganado o seu novo administrador. Será que enganou mesmo? Não estaria Barroso ao corrente de tudo? Recentemente, surgiram no jornal “Público” documentos comprometedores e indiciadores de ser o anterior presidente da CE aconselhado pela Goldman Sachs no exercício das suas funções.
A atitude da Comissão relativamente ao seu ex-presidente é a mais correcta.
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