Afonso do Cimo
A solução para a actual estagnação económica persistente
Reduzir os dias de trabalho de 5 para 4 dias por semana mantendo os salários

A solução para a actual estagnação económica persistente
Na Gazeta da Beira em edição de há poucos meses li proposta de solução para a actual crise económica da União Europeia que se está a alargar a todo o mundo tecnologicamente mais desenvolvido. O proposto nesse texto é a redução do tempo de trabalho semanal em dias, mantendo o número de horas por dia (8 horas). Pareceu-me solução a ponderar: reduzir os actuais 5 dias de trabalho por semana para 4 dias, trabalhando-se de segunda a quinta, deixando de se trabalhar na sexta-feira, mas mantendo-se o valor do salário mensal.
Reduzindo-se o número de dias de trabalho semanal de 5 para 4 dias, as empresas, os governos e as autarquias terão que contratar mais 20% de trabalhadores, aumentando em igual proporção os encargos salariais.
Falei ocasionalmente sobre o assunto com economista meu conhecido. Argumentei contra a solução por nenhuma empresa poder aumentar significativamente os seus encargos salariais se a mesma solução não for seguida na generalidade dos países com economias mais poderosas (toda a União Europeia, os EUA, a China e os outros países com PIB anual por pessoa talvez superior a 3.000 euros por ano). Esperava que não concordasse com a opinião.
Para meu espanto foi peremptório: Essa solução será a única capaz de fazer a economia mundial sair da actual crise económica. Acrescentou:
Todos os anos, frequentemente algumas vezes, os dirigentes dos países com economias mais poderosas reúnem-se para estabelecer grandes linhas da política económica mundial. São reuniões conhecidas por G7 – os7 grandes – (os EUA, França, China, Alemanha, Inglaterra, Itália e Brasil, por vezes também outros de menor peso económico). Se nessas reuniões de nível mundial for reconhecido ser necessário tomar essa medida para que sejam distribuídos suficientes rendimentos para a generalidade da população de cada país – que vive do seu salário – poder comprar quanto se produz, o aumento dos encargos com salários dos trabalhadores das empresas e dos serviços públicos terá repercussões económicas e sociais decisivas: Evoluir-se-á rapidamente para o pleno emprego, porque o número de postos de trabalho subirá um pouco mais de 20%, aumentando consequentemente em igual proporção os rendimentos distribuídos. As empresas e os serviços públicos aumentarão a produção em igual percentagem. Isso acabará com a actual crise de estagnação económica
A crise actual (continuou o economista meu conhecido) resulta do muito grande e cada vez mais acelerado desenvolvimento tecnológico desde o século 17.
No século 18 as máquinas de fiar e de tecer então recentemente inventadas na Inglaterra movidas por máquina a vapor, também aí inventadas, lançaram no desemprego milhões de artesãos ingleses que fiavam e teciam, alargando-se depois o desemprego a outros países.
No século 19 os grandes avanços científicos e tecnológicos levaram ao domínio da electricidade para iluminação, mover veículos, outra maquinaria e outros fins. Depois, com a exploração do petróleo, fizeram-se mover automóveis e camiões, e voar aviões.
A seguir o domínio da emissão e recepção das ondas electromagnéticas fez desenvolver a comunicação por rádio, por televisão e por telefone pessoal (telemóvel). Recentemente o desenvolvimento dos computadores fez aumentar muito a capacidade de armazenamento de informação, a rapidez do cálculo matemático e a transmissão quase instantânea de informação entre todos os humanos, incluindo quando circulam em grandes cápsulas em redor da Terra, vão em foguetões para a Lua e, talvez proximamente, para Marte.
O desenvolvimento tecnológico continua a aumentar aceleradamente a produtividade do trabalho. Em consequência, quando um trabalhador se reforma, a empresa não precisa de contratar novo trabalhador que substitua o reformado se o desenvolvimento tecnológico tornou o posto de trabalho dispensável, do que decorre a grande dificuldade de os jovens trabalhadores saídos das escolas encontrarem trabalho; e frequentemente, porque as empresas adquirem nova maquinaria tecnologicamente mais avançada, despedem número significativo de trabalhadores.
É frequente ouvir-se nos noticiários que certa grande empresa internacional, porque os seus lucros estão a diminuir, ou não estão a crescer o esperado pela sua administração cuja remuneração varia em função dos resultados, decidiu despedir milhares de trabalhadores, por vezes mais de uma dezena de milhares, sem reduzir a sua produção.
No século 18, quando se inventaram as máquinas de fiar e de tecer e as máquinas a vapor, na Inglaterra milhões de trabalhadores artesãos ficaram em pouco tempo no desemprego. Necessariamente reagiram com dureza, que não havia mecanismo público de apoio aos desempregados. Andaram em grandes grupos pelo país a incendiar as fábricas que lhes roubavam o pão.
O poder público reagiu como costuma: mandou as forças de repressão (então quase só a tropa) abater a tiro os artesãos.
Hoje o avanço dos valores civilizacionais impede em regra que isso aconteça. Dão-se subsídios de desemprego aos que ficam sem trabalho. Mas, porque os subsídios são reduzidos e temporários, o montante global do rendimento disponível para comprar mercadorias e serviços, que as grandes empresas produzem cada vez em maior quantidade, diminui cada vez mais. Isso criou a actual grave crise económica mundial de que se não sairá sem reduzir significativamente o tempo de trabalho semanal, não em número de horas de trabalho diário, mas em número de dias, sem reduzir os salários.
As grandes empresas multinacionais resistem tenazmente a isso, porque são as que têm maior capacidade para comprar as melhores tecnologias geradoras de desemprego e querem fazê-lo para levar ao encerramento das pequenas e médias empresas e assim avançarem na monopolização da produção e dos lucros.
As consequências sociais e políticas estão a ser dramáticas: o emprego vai aumentando e as despesas públicas com os desempregados crescem cada vez mais, desequilibrando as despesas públicas. A resposta dada a crises semelhantes, embora muito menos acentuadas, sempre foi os bancos centrais desses países emitirem moeda para financiar os seus governos para fazer obras e abrir novos serviços públicos a dar trabalho aos desempregados. Mas, depois do fim da segunda grande guerra, os EUA, que têm o monopólio de facto de emissão da única moeda de pagamento internacional, foram manobrando as políticas monetárias nacionais para proibir o recurso à emissão de moeda para financiar os seus governos. Com essa proibição quere-se que a desvalorização da moeda não reduza o valor da muito grande acumulação de riqueza em dinheiro pelas grandes empresas mundiais, os seus administradores e os grandes detentores de acções e de títulos de dívida pública. Detendo enorme riqueza em dinheiro fazem os devedores pagar juros especulativos.
A solução correcta será fazer investimentos públicos no desenvolvimento do ensino, das comunicações, na investigação para novos e mais eficazes medicamentos, e noutras áreas de interesse público. Mas os grandes interesses financeiros dos que têm muitos milhões de milhões de euros e dólares, como os americanos mais ricos e também os alemães, os holandeses e outros, opõem-se tenazmente, sem que nenhum dos grandes economistas mundiais tenha a coragem, como nas fábulas, de dizer que “o rei vai nu”.
Não tive argumentos para me opor ao raciocínio do meu conhecido economista. Fiquei a pensar no que disse. Em cada dia que esta crise mais se acentua, mais me parece que terá razão.Redação Gazeta da Beira
Comentários recentes