Mário Pereira

As nossas tribos

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Ao longo de milhões de anos todos os nossos antepassados viveram organizados em grupos e em territórios relativamente pequenos. Estas tribos ainda hoje representam a principal forma de organização das pessoas que vivem em alguma regiões de África e da Amazónia.

Os estados modernos como base da organização das sociedades são recentes. Terminado o império romano a sociedade medieval que seguiu, organizada em feudos, não era muito diferente duma sociedade tribal. Mesmo na Europa, só nos últimos mil anos é que começaram a organizar-se os estados que conhecemos.

Apesar de vivermos num mundo cada vez mais globalizado, em que há muitas questões que têm de ser tratadas a nível mundial ou continental, importa reconhecer que as tribos continuam a existir e ainda são importantes para a organização da nossa sociedade.

O que liga as tribos podem ser laços familiares, a raça, a religião, a língua, o local de nascimento, o clube de futebol, etc….

Na linguagem corrente usamos com frequência os pronomes nós para falar da nossa tribo e eles para falar das pessoas que pertencem a outra tribo.

As pessoas que incluímos no “nós” têm um valor enquanto “eles” têm outro.

Se acontece alguma coisa a um dos nossos é um problema e somos capazes de fazer alguma coisa para reparar o dano ou até para organizar uma vingança, mas quando acontece alguma coisa a um “deles” não passa duma notícia desagradável.

Quando acontece uma desgraça qualquer, seja um atentado, um acidente ou um terramoto, em qualquer parte do mundo. A primeira reação do governo de Portugal é o lamento oficial de circunstância mas a segunda é vir dizer se há ou não portugueses entre as vítimas.

Se há alguém dos “nossos” entre as vítimas desencadeiam-se ações de apoio, se são só “deles” mostramos a nossa disponibilidade para ajudar se eles pedirem.

Um dos problemas dos estados modernos está na dificuldade em articular os aspetos globais  com as tribos a que cada um de nós pertence, sendo certo que é mas fácil as pessoas sacrificarem-se pelas suas tribos do que pelo seu estado.

Conviria pensar a política, a economia, a educação e a arquitetura tendo em conta que embora tenhamos alguns comportamentos racionais são as emoções que nos movem e que permitem assegurar a nossa sobrevivência e a dos nossos.

Os sentimentos sejam de amizade, ódio, alegria, tristeza, raiva ou ciúmes podem levar-nos a fazer coisas que se fôssemos só inteligência não faríamos, mas há pessoas com autismo ou doença mental que embora muito inteligentes seriam incapazes de sobreviver sem apoio de terceiros, porque as suas emoções não funcionam adequadamente.

Nós vivemos entre a nossa curiosidade de conhecer o mundo todo e a necessidade de termos um grupo de pessoas “a nossa gente” que seja capaz de nos proteger e de cuidar de nós.

As cidades da Europa e da América estão cada vez mais dividias em zonas habitadas por diferentes grupos, assistindo-se cada vez mais a múltiplas formas de violência.

Há tempos ouvi na internet uma arquiteta síria dizer que a arquitetura moderna tem grandes responsabilidades na guerra civil que está a destruir aquele país. Dizia ela que até há 100 anos atrás os vários grupos raciais e religiosos viviam em paz porque viviam nas mesmas ruas e nos mesmos bairros.

A modernização das cidades levou a que os vários grupos se fossem agrupando em diferentes bairros e a partir dai criaram-se condições para que as pessoas se separassem e começassem a viver cada vez com menos contactos com pessoas de outros grupos e que esta separação é o combustível que alimenta a guerra civil.

Até em Viseu já há zonas em que os habitantes pertencem maioritariamente a um determinado grupo, mas este fenómeno nas grandes áreas urbanas é cada vez mais marcado.

Nas nossas cidades os símbolos dessa separação são, na base, os bairros sociais e, no topo, os condomínios fechados que acabam a funcionar como tribos.

O desafio é construir sociedades em que todas as tribos possam coexistir e cooperar sem isso haverá cada vez mais risco de violência.Redação Gazeta da Beira

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